A primeira vez que fui ao Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, eu havia completado 18 anos e acabava de ingressar no curso de Jornalismo na Faculdade. O projeto multicultural na Estação da Luz estava recém-inaugurado e aquele mar de leituras não obrigatórias era absolutamente aprazível ao jovem Tupinambá vindo das terras distantes do Norte e dado aos prazeres textuais.
Na ocasião, uma exposição do Grande Sertão Veredas lançava os visitantes para dentro da obra de Rosa, com páginas gigantescas dos manuscritos do mineiro reproduzidas fidedignamente. Um primor, mesmo pra mim, que jamais tinha tido contato com o diálogo de Riobaldo com o porvir, até então. No último andar, a tecnologia embalada pela voz familiar de Fernanda Montenegro narrava a origem da última flor do Lácio. Beleza digna de Bilac.
Quase dez anos depois, o espaço seguiu legitimando sua existência e subvertendo a palavra ‘Museu’ com o melhor da produção cultural do nosso idioma.
Quase dez anos depois, o fogo consumiu boa parte do prédio centenário que abrigava esse templo bendito da arte, numa segunda-feira chuvosa.
Deu na TV. O repórter encapuzado narrava as labaredas, em área segura, e anunciava a morte de Ronaldo Pereira da Cruz, um dos primeiros bombeiros a tentar salvar o local, ardendo entre as chamas dessa que nem é uma das principais paixões nacionais. Ali, me revi dez anos antes, começando a amar mais a literatura, incendiado por aquela visita.
Reza a lenda que, Nero, tocava lira, à la Apolo, enquanto Roma ardia em outro incêndio, também sem causa definida. Alguns apontam para o próprio imperador como autor do incidente que acabou com 4 das 14 repúblicas romanas, mas foram as cabeças dos cristãos rebeldes que rolaram pelas ruas das cidades como forma de justiça ante ao prejuízo. É fogo!
A esperança é de que Alckmin largue a lira depressa e faça alguma coisa por essa parte tão definitiva da história do Brasil para que mais jovens de 18 anos possam arder nessa paixão inflamável que é a nossa literatura por muitos e muitos anos.