domingo, 8 de maio de 2016

Nara, brilho forte de voz miúda



Dia desses, me deparei com uma frase da Clarice que me deixou intrigado: “Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir”. Dita assim, como um disparo, não me fazia muito sentido. Cognitivamente compreendia, porém na prática tratava-se de um raciocínio um tanto quanto intangível. Até que descobri o disco ‘Vento de maio’, de 1967 da, ainda pouco conhecida pra mim, Nara Leão.

Que presente maravilhoso a arte nos propicia. Ter contato com produções que fizeram parte da nossa construção afetiva inconsciente e, num segundo, nos ver revelados por uma obra, que sempre esteve ali.

Com canções de Gil, Ary Barroso, Vinícius e muito Chico Buarque, o álbum é uma miscelânea de maravilhas da nossa música, quase sussurradas por essa mulher que, até então pra mim era um nome familiar, mas pouco íntimo.

Ali entendi a frase de Lispector.  

Não trata-se do timbre inimitável de Elis, tampouco da dramaticidade de Maysa, contemporâneas de música e de amor da Nara, se trata de uma voz absolutamente dotada de personalidade e entrega, mais comum à cantoras de hoje, como Céu ou Tiê. Um canto que assume mais da vocação e menos do talento, pelo menos do pré-estabelecido no mainstream, acho ótimo.

O fato é que, enquanto as rádios executavam as desventuras amorosas e abandonadas das grandes vozes como Ângela Maria e Dálva de Oliveira, um apartamento na Avenida Atlântica era o cenário de uma nova forma de narrar a vida por meio do encontro entre um banquinho e um violão... Nascia a Bossa Nova e Nara Leão, com sua voz tímida e olhos enormes, era a cúmplice absoluta desse crime fantástico.

Como que como um pretexto para me fazer ainda mais fã dessa mulher, ao romper com Ronaldo Boscoli, a cantora rompe também com a Bossa, que acabara de inventar e se tornar a sensação da garotada naquele período. Dá ouvidos à um tal de Zé Keti, funda o Teatro Opinião com a maestria de uma estrela, sem contudo, emitir grandes notas sem desafinar, puro compromisso com a vocação de se expressar com paixão e fúria.

Começa a cantar música de protesto, é ameaçada pelos militares e defendida por um poema de Drummond, escrito para este fim, torna-se a musa da música brasileira com mais timidez que voz. Um milagre possível naqueles tempos.

Com a docilidade da interpretação de Nara e o “Vento de Maio”, aprendi que ‘Com açúcar e com afeto’, qualquer verdade vale mais que uma bela voz pra fazer nascer uma canção.

Sua genialidade era tamanha que foi a Menina Opinião que fez frente à movimentos posteriores como a tropicália e que cedeu, literalmente o palco para outra gigante brilhar com seu ‘Carcará’, Bethânia.

Mais tarde, ainda uniu o samba do morro com a plateia do asfalto e fez brilhar, através de sua pouca voz, nomes como Roberto e Erasmo (personas non gratas nas rodas cariocas burguesas).

Um ano depois que eu nasci, Nara nos deixou aos precoces 47 anos de idade, vítima de um tumor inoperável no cérebro. Deixou no mundo, além de belíssimas interpretações, dois filhos, que teve com o cineasta Cacá Diegues e uma lição única, a de que a impossibilidade não pode com a paixão.

A revelia da frase de Clarice, Nara foi chamada e encontrou sua própria maneira de ir, inóbvia, singular e genial. 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Ordem e progresso?



"A ponte é o abraço do braço do mar
Com a mão da maré..."


Nesse feriado escolhi me desligar da realidade e mergulhar na ficção. Explorei o Now e o Netflix até as últimas consequências. 

Espremi ao máximo e me deleitei com séries de terror, romance e comédia, entrevistas deliciosas e muito cinema. Finalmente assisti e me revoltei com Spotlight, atualizei a temporada de grey's anatomy e detestei a nova produção com Ashton Kutcher.

Para oxigenar um pouco, minha mulher e eu fomos dar um giro em Niterói e acabamos na praia de Itaquatiara para mergulhar mais fundo em outra ficção, a da beleza natural. Mar azul, areia branca, céu claro... Ar puro!

Na volta pra casa, inevitavelmente numa zapeada de canal, a realidade: a ciclovia Tim Maia recém inaugurada vem abaixo com a ressaca das ondas e deixa duas vítimas, talvez três!

Junto com a ciclovia, nossa dignidade de cidadão também despenca. Pagamos impostos altíssimos, a maior quantidade do mundo, e tudo o que nos dão em troca é desmando.

Obras como essa, superfaturadas e feitas a toque de caixa estão tatuando o Rio em toda parte. Sob o cronometro das Olimpíadas, pontes, ruas e viadutos são entregues sem a mínima segurança e a preços exorbitantes, uma vergonha pessoal de ser brasileiro.

Como não prever o mar? Como não supor na engenharia estrutural que a natureza suporta o homem até um limite tangível?

Rapidamente as redes sociais são inundadas por uma avalanche de construções mais inteligentes em outros países, onde uma violência dessa natureza jamais passaria.

Penso nos entes das vítimas obrigados a seguir pagando impostos criminosos, sustentando o salário dos algozes à luz de sua própria dor.

Nenhuma ficção hollywoodiana é tão inverossímil quanto os últimos acontecimentos no Brasil... Nem House of Cards sustentaria nossa bancada política, de Jean à Bolsonaro a corja é de um limite farsesco que as novelas mexicanas do SBT atendem melhor à nossa credulidade. 

Que o Rio continue lindo apesar das pontes estaiadas e dos viadutos que suturam a paisagem, que a cidade não faça mais vítimas e que a realidade vença a ficção na vida e nas urnas... Deus esteja!

Quanto à Ciclovia Tim Maia inaugurada no dia 17 de janeiro deste ano... Me diz, quanto foi?

44 milhões de reais!


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Impotência nacional


Há no leito das coisas uma sanha medonha de contentamento.
Frívola vontade inerte de nem desejar.
Percebo no canto dos pássaros certo comodismo, como se a asa fosse mais que o céu quando se abre.
Tenho em mim que as coisas se conformaram.
Vento sopra sem pretensão de ventania, chuva chove sem ânsia de tempestade... É tudo calma, menos em mim!
Em mim, sigo sedento de sede. Buscando uma nova procura, querendo encontrar o que nem sei!
Passo as tardes adivinhando o tempo e indagando sincero sobre o princípio, o meio e o fim da vida.
Ah, quisera eu ter a placidez dos peixes, conformados com o sal da água, quando salgada, insípida quando doce... 
Recosto meus pensamentos mais ineficazes no que tem vida, vejo até nas formigas uma falta de audácia carregando o mundo, mas saboreio na resistência das plantas a vontade irmã da minha de não conter na raiz o que alcançamos no galho!
A vontade do salto que pertence às flores, o ciclo de vida e morte tentando as estações, suportando os dias à espera sem esperança de um dia ser maior, de poder com a morte, de ser mais forte que o tempo!
É essa a minha vocação... A de nunca chegar à margem alguma e ainda assim remar!

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Uma Rosa da minha terra



O conterrâneo é o parente onde a geografia cumpre o papel do laço sanguíneo. Nem precisa ser da mesma família para notar muito parecido um jeito de falar, uma preferência musical, uma ótica pela qual se enxerga o mundo.

O conterrâneo, assim como o parente, preserva referências afetivas comuns, nutre expectativas gêmeas a respeito de mudanças políticas e carrega uma espécie de semelhança abstrata que os une, ainda que já não vivam na terra onde nasceram.

Aliás, para quem vive longe da terra de nascença, então, o encontro com um conterrâneo é um isopor para um afogado. Intimidades logo são estabelecidas e a memória da cidade, onde se nasceu, reascende um saudosismo particular e confidente. Já não estamos sós e temos parte nesse mundo com alguém. Ufa!

Neste sábado, tive esse tipo de salvação. Completando 60 anos de carreira, Rosa Maria Murtinho, minha conterrânea, foi anfitriã de uma comemoração dedicada à sua própria história em cena. Assisti-la ao vivo me encheu de vida.

Dirigida pelo jovem Jorge Farjalla, Rosa Maria escolheu soprar essas velas no palco e bem longe da zona de conforto. Encarnou a amargurada ‘Dona Flávia’, numa adaptação poética de ‘Dorotéia’, do anjo pornográfico, Nelson Rodrigues.

Quase três horas em cena, a atriz prova que a experiência vence a idade, e com seus mais de 70 anos de vida, dançou, gritou, chorou, gemeu, caiu e levantou com a avidez de uma menina, magia que o teatro proporciona ao brindar atores e público com o tempo encantado do faz de conta.

A revelia da tradição na qual as atrizes costumam comemorar suas datas importantes com monólogos, a paraense trouxe junto com ela um elenco brilhante que deu suporte à narrativa rodriguiana complexa, na qual se faz necessário mudar a atenção objetiva por uma leitura abstrata, razoando metáforas para explicar o inexplicável.

‘Dorotéia’ é a derradeira peça do ciclo das obras do Teatro Desagradável, como Nelson descrevia, e narra o encontro entre a beleza e a feiura, numa disputa por espaço dentro da gente. Composta por grandes atrizes, músicos com habilidade cirúrgica na precisão do som, um cenário inteligente e refinado, além de caracterizações impecáveis, a montagem do Farjalla contou ainda com a interpretação inenarrável de Letícia Spiller, que há muito não precisa provar que a paquita deu espaço à uma atriz inteira e definitiva.

Com a nudez e o humor característicos das construções de Nelson Rodrigues, a peça é um convite à reflexão da aparência atualíssimo, embora escrita em 1949. E, como tipicamente o autor é capaz, joga o expectador diante do espelho onde o que há de belo e terrível em nós vem à tona.

Rosa Maria Murtinho é um espetáculo dentro do espetáculo e faz às vezes iconoclástica de destruir as grã-finas das novelas das oito e nos presentear a todos com um talento retumbante de uma atriz que não se entregou ao caloroso ambiente do sucesso, escolhendo se reinventar diante dos nossos olhos emocionados.

Mesmo que ela tenha saído ainda pequena da minha cidade, trato meu carinho por Rosa como o carinho de um ente da família, uma legítima conterrânea, alguém que carrega consigo o que eu também carrego comigo.





segunda-feira, 28 de março de 2016

Crônica auto-poética


Quando aprendi a escrever poesia e entendi que, mais do que a rima, a metáfora era a alma de um verso, passei a poetizar tudo: pássaro era gente, beijo, uma explosão, amor, a chuva mais forte da tarde na vida da gente e desejo uma sede que não era de água.

Fácil, fácil, tudo ia se tornando de um romantismo atroz. Já moço, trocava os primeiros versos por um selinho em secreto no prédio ao lado e o meu jeito byroniano de entrar na adolescência me consentia algum valor erudito, já que sempre fui gordinho e quatro olhos.

Na base do verso cai no gosto dos professores e ia me arrastando nas exatas sempre trazendo como triunfo a minha habilidade de falar bonito. ‘E daí que ele não sabe dividir... já leu o que ele escreveu para a festa de fim de ano?’, diziam.

Com o tempo a coisa foi se agravando e do ato de falar por meio de símbolos passei a enxergar, poético, a realidade a minha volta: O entardecer era gris, o amanhecer, riso farto do sol, uma planta que dava fruto era um parto de sabor incauto... Danou-se. Virei poeta!

Nas seletivas de vestibular, nenhuma opção parecia se encaixar com a minha ânsia pela desconstrução verbal... Letras era sério demais, Artes, de menos... Jornalismo... Isso! Inscrevi-me em todos os cursos possíveis, passei e cursei com gosto. Minhas tiradas imagéticas eram bem vindas.

No primeiro estágio, as ondas da rádio Rauland, carregavam consigo, logo cedo, alguma façanha poética tornando a notícia áspera mais palatável para os ouvintes. Depois, já na tevê, o jogo entre texto e imagem limitava um pouco a minha sina e acabei não durando mais do que três anos por lá.

Com a maturidade profissional fui internalizando a poesia e deixando brotar uma essência mais séria na minha forma de dizer o dizível... piorou... parei de enxergar com poesia e passei a sentir com ela.

Como uma espécie de oxigênio que alimenta meus pulmões me convocando à existência, quase nada me era filtrado pela via objetiva da vida cotidiana: Uma bronca era um soco duro na cara da minha tranquilidade, o riso, um carinho com os dedos da simpatia e o amor... seguia sendo a chuva mais forte da tarde na vida da gente.

Mesmo calado, passei a sentir, com uma fome cada vez mais instigante, a metáfora por trás das coisas. Na vida ordinária interpreto um adulto comum que encontra uma pedra e não a cumprimenta como a vedete do poema do Drummond.

Ajo, discuto, reflito, como, trabalho e até namoro como se enxergasse nas coisas apenas a camada fria do que elas são, mas dentro de mim, alguma voz que eu mesmo adestrei segue me descrevendo a cor dos perfumes, a cara dos gestos, o hálito das palavras o som de sementes abraçando a terra até plantarem vida no que a gente colhe depois.

Já me questionei se isso era algum tipo de esquizofrenia severa, mas minha preocupação virou uma canção que compus em segredo. Quem sabe eu cante?

Alguém me perguntou, recente: ‘mas pra que é que serve tanta poesia?’ E eu calei em mim um bolero que talvez um dia faça alguém dançar a sua serventia.


domingo, 20 de março de 2016

Zabelê, um déjà vu inédito



Já perdi as contas de quantas vezes fui atravessado por essa sensação de déjà vu, termo em francês para o fenômeno do cérebro que faz parecer que já vivenciamos determinada experiência e que, ao pé da letra quer dizer ‘o já visto’.

Cenas banais do meu dia como pegar uma xícara e levar o café até a boca, enquanto alguém diz uma frase e, num instante, é como se tivesse me transportando no presente para um passado já vivido e quase posso prever as palavras que me serão ditas. Filósofos leem esse fenômeno como a velocidade do pensamento humano, cientistas como uma atitude involuntária do cérebro, já os espíritas como um lampejo da confirmação da reencarnação. Eu, ainda enfrento esses segundos, assustado.

Nesse fim de semana a sensação foi prazerosamente diferente. Em mais uma navegação incauta nas ondas da internet meu barco aportou em um videoclipe no youtube e desceu âncoras de modo tão definitivo que até agora não consegui desgrudar meu dedo do play.

A melodia, uma brisa boa meio viciante que desagua num vocalize que nunca mais vai sair da minha cabeça. A letra, simples, é também apaixonante e lírica. A voz é inédita e familiar: “É a Baby?”, não, é melhor. É Baby e Pepeu juntos num outro ser. É a eternização de um DNA que o Brasil aprendeu a amar. É um pássaro? É o avião Zabelê, uma esperança concreta no futuro da música brasileira que é, ao mesmo tempo, uma revisita aos pais, e a superação do tempo. A alquimia de uma genética musical que é patrimônio desse país.

Não se trata aqui do lugar comum, “filho de peixe”, minha geração não viveu o ápice dos novos baianos in loco, mas a natureza nos presenteou com o milagre do novo. Óbvio que posso pôr para tocar ‘Mistério do Planeta’, ou ‘A menina dança’ a qualquer instante no meu rádio, mas estar diante dessa genialidade traduzindo o meu tempo é tomar parte das minhas raízes no hoje, é revigorante.

Esse encontro casual com ‘Nossas Noites’, clipe da canção de trabalho do disco em que Zabelê debuta sua carreira solo, tocou meu coração de uma maneira que só havia sentido em 2003 quando assisti a Maria Rita nascer na nossa MPB. Era um déjà vu de Elis com o frescor do meu tempo no agora. Ambas, um déjà vu inédito, já que não era nascido quando suas mães destilavam a fina flor dos timbres e tons alimentando a memória coletiva da nossa gente. Ganhei minhas próprias referências.

Temperando ainda mais minhas emoções, o clipe tem a participação dançante do time que tocou e produziu o disco, além do Moreno Veloso, isso mesmo, outro filho genial da nossa cultura, dançando uma espécie de samba de roda contemporâneo, idêntico ao pai, quase sem tirar o pé do chão, e fazendo um pas de deux com Zabelê. É a metáfora da nossa história musical bailando diante da gente. O que seria apenas Moreno e Zabelê trocando passos tímidos no teatro municipal de Niterói, é na verdade o ‘Menino do Rio’ do meu tempo.

Zabelê, eu canto pra Deus proteger-te!


Senhoras e senhores, Zabelê com ‘Nossas Noites’: https://www.youtube.com/watch?v=5R3y2ZanRhg

segunda-feira, 14 de março de 2016

Atlântida Familiar



Tive um fim de semana hilário na companhia dos irmãos do meu sogro. Quatro figuras espirituosas, que aos poucos ultrapassam os 60, e que carregam junto com a maturidade um humor ácido agudo que preserva certa jovialidade por trás das marcas do tempo. Experiência e adaptação com a nova fase da vida dialogando entre piadas verossímeis até onde a memória alcança.

No primeiro momento, quando se encontraram, a sensação que tínhamos era a de recreio escolar sem merenda. Entre risos e abraços, “Lembra de fulano?”, “Naquele tempo não sei onde”, “Isso foi não sei quando”... Uma colcha de retalhos das lembranças íntimas daquela turma de sexagenários descolados deu o tom dos próximos dois dias live in Araruama Beach!

Aos poucos os traços de personalidade de cada um deles ia tomando forma. Uma mais recatada e direta, outra desinibida e ágil, um que falava verdades entre risos e o anfitrião, meu sogro, com mal humor cômico e crônico dotado de uma velocidade de raciocínio brilhante.

O circo estava armado para as cenas familiares mais improváveis com personagens dignos da melhor chanchada brasileira, com direito a apelidos e jargões infames ao melhor estilo ‘Atlântida’.

Inevitavelmente me senti como que vivenciando as páginas do livro com a qual Fernanda Torres debutou fabulosa na literatura. “Fim”, que narra a história de cinco cariocas na etapa final da vida rememorando os anos de desbunde. Uma construção textual que melhor seria se considerada, arquitetura de palavras, tamanha a minucia com a qual a escritora lança mão de seu talento de atriz para encarnar as personagens antes de escrevê-las e, por isso mesmo, dotado de uma humanidade típica da boa ficção.

No churrasco sabático foi exatamente como no livro da atriz, as piadas vinham como refluxo das desavenças do passado e os momentos mais constrangedores da vida deles se tornava, com naturalidade, a pauta hilária do almoço, com aquela sensação enorme de que em certa altura da vida não há nada a se perder e tudo pode e deve se recriar com a leveza da maturidade.

Nós, os jovens, tínhamos muito pouco ou quase nada a contribuir àquele carrossel de narrativas que quase sempre desaguava na explosão de risos de si mesmo, onde era possível extrair, sem caretice, inúmeras aprendizagens. Então, nos resignamos à emprestar com prazer a nossa atenção e contribuir com gargalhadas sinceras.

Do alto dos meus vinte e muitos, me questionei sobre a existência sem premeditação: Então, é isso que é a vida a final. A gente leva tudo tão a sério, correndo atrás de um tempo que nunca alcançaremos e tentando vencer uma luta ganha com ela para, no fim, desfazermos uma mala de vivências que precisam valer a pena, ainda que seja para o riso mais ingênuo.

Estar vivo hoje é ter lápis e papel em punho para escrevermos a história que quisermos (ou pudermos), para, quem sabe, termos uma família feliz a nossa volta a quem possamos ler o que foi que a gente viveu. Isso basta!

A verdade é que depois de um tempo começamos uma contagem regressiva involuntária. E a questão é a nossa escolha entre contar números finitos ou palavras de histórias que imortalizarão o que fomos um dia.


Nesse fim de semana aprendi que a maturidade desacelera nossa ansiedade e que nada na vida é tão sério que não mereça boas doses de ironia. Nem a corrupção que assola o nosso país, nem a massa de manobra a qual podemos nos tornar se resolvermos pintar a cara e escolhermos o lado errado da pista.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Ivanilton Lima



Naquela tarde, a gravadora estava sediando a correria habitual quando me anunciaram uma visita importante a qual precisava receber: “Márcio, o Michael vem aí... você pode atender pra mim?”. Aceitei sem me questionar muito de quem se tratava, posto o grande número de artistas e empresários com os quais a minha rotina profissional propicia encontros, mas esse, apesar de ainda não ter me dado conta, seria um dos mais especiais.

Quando entrei na sala de reuniões me deparei com um rosto muito familiar, mas que ainda não me ligava à nome. “- Café, mate?”, questionei mecânico. “- Café e sem açúcar”, me respondeu aquela voz quase mais familiar que o rosto. Rouca e potente escondia um sotaque nordestino quase cantado. “Você deve estar lembrado de mim, mas é que estou com cerca de 100 kg a menos”, brincou. “Sou Michael Sullivan, trabalho com gospel, mas também venho da música secular”, respondeu direto à minha expressão que já devia denunciar meu questionamento. “Claro!”, exclamei incontido. Naquele instante me veio à mente as centenas de canções que aquele homem, que estava diante de mim havia composto:

De ‘My Life’ à ‘Wisky à GoGo’, de ‘Nem um toque’ à ‘Me dê Motivo’, passando pelas infantis ‘Brincar de índio’, ‘É de Chocolate’ e ‘Arco-íris’... Enfim, centenas de canções por trás de grandes vozes aclamadas pelo público e pela crítica, incluindo a dele. Tratava-se de um gênio inconteste e ali, diante de mim. “No que posso te ajudar?”, prossegui tentando disfarçar a admiração. Seguimos trocando casualidades profissionais e depois da terceira palavra já nos tínhamos tornado amigos de sempre e pra sempre.

No meio da conversa, soltei alguma metáfora impensada. Ele pescou e rebateu: “- Você escreve, não é?”. “- Como?”, respondi perguntando pra ele e pra mim... (Como dizer para o sábio de baixo da canção que imortalizou o dueto do Tim Maia com a Gal que se tem alguns manuscritos escondidos e que, há muitos anos, competi em festivais escolares cantando e defendendo meus versos?) “- Você descreveu algum termo com a sensibilidade de um poeta, menino”, seguiu me desafiando a sair da caixinha. “De certo modo...”, arrisquei. “Então faz o seguinte, tome nota do meu endereço e na semana que vem acertamos uma ida sua ao meu estúdio para eu ler o que você tem guardado, topa?”. Topei ainda sem muita certeza se era apenas uma gentileza daquele grande artista disfarçada de convite.

Às proximidades da hora no dia marcado, aquela mesma voz me pega desprevenido pelo telefone. “Márcio, escuta, você janta ou lancha à noite?”. Era ele, Michael Sullivan, reiterando um convite feito uma semana antes com a certeza definitiva de um caçador de almas sedentas pela arte. Ainda sem acreditar respondi qualquer coisa, juntei as minhas coisas e corri, literalmente, para o endereço anotado à lápis num pedaço de papel sem pauta.

Ao chegar à bela mansão por detrás de um grande bosque na Barra da Tijuca, lá estavam ele e sua esposa. Com a nobreza de um rei e o coração de um servo, me recebeu na casa e na vida deles pela porta da frente. Cantamos e contamos coisas das nossas vidas e, num instante, já estávamos sentados no estúdio que ele construiu para ser seu segundo lar dentro de seu próprio.

“Menino, eu tenho aqui uma melodia. Ainda não tem letra...” Enquanto ele terminava de desenhar as palavras da frase, meu corpo todo já reagia a uma sensação nova... A certeza de que ali nasceria um momento que daria um novo rumo à minha vida e à arte que eu produzia em secreto. Sem responder nada peguei papel e caneta e o deixei tocar o violão. Uma, duas, pedi a terceira e... Pronto. Tinha escrito algo. “Canta pra gente”, disse doce a esposa dele que ainda conhecia pouco e que tinha um nome difícil de decorar. “Ahhh... Deixa eu ir que o que tinha guardado no peito se perdeu...”, Comecei a cantar. Quando terminei estávamos os três muito emocionados e ainda mudos. Não sabia se tinha sido aprovado e o constrangimento se verteu em alegria quando os olhos de Michael brilharam enquanto ele dizia: “Que coisa bonita, rapaz!” Nasceu nesse primeiro encontro marcado ‘Dor em Arlequim’. Primogênita das dez canções que compusemos em parceria de lá pra cá.

Como uma mistura de tutor poético e irmão mais velho com solfejos de apadrinhamento, Michael Sullivan seguiu crescendo mais a cada dia em meu conceito. O que faz um homem consagrado pela mídia descer do seu trono e cavar um espaço no peito de um desconhecido com a humildade de um anônimo? Só a verdadeira nobreza é tão discreta, quando o Midas da canção te dá guarida na sua garupa e te surpreende com oportunidades incontáveis de crescer com a sua arte e ser alguém melhor.

Descobri que o homem, por trás da personagem de nome gringo, é um nordestino cheio de histórias reais nos bolsos da alma pra cantar para o nosso coração. É um jovem sonhador que passou fome de pão, enquanto saciava sua sede de música, acreditando que as coisas podem melhorar pra quem tem Deus no peito. Conheci, não apenas o Sullivan (sobrenome eleito numa lista telefônica em Nova Iorque pra protagonizar as trilhas internacionais das novelas da Globo), mas o Ivanilton Lima. Ser simples de generosidade transbordante que viveu o melhor e o pior da fama sem conhecer a cara do rancor.

Como a fada boa dos contos, Sullivan tem alimentado a minha escrita poética e encorajado a minha assinatura ao lado da dele em canções das quais me orgulho sem envaidecimento, porque é dele que sempre parte a consciência do suor por trás de um refrão bem escrito.

Michael Sullivan, ou Ivanilton Lima, tanto faz... é desses monstros sagrados que gastam mais tempo em suas oficinas de genialidade do que diante do espelho. É, pra mim, um símbolo na música e uma referência sincera na vida. Trata-se de um camarada que sabe de cor o número de degraus que lhe levou ao topo, para que não se iluda com a beleza da vista.

Ele, nessa semana, completa mais um ano de vida na vida da gente e o BlogQuaseCult pede ao ‘Cara lá de cima’ mais saúde e paz, para que possamos desfrutar da saborosa companhia deste homem de luz...


Brilha pra nós, Michael Sullivan! Brilha pra gente, meu amigo!

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Violão e voz




Nara Leão, João Gilberto, Caetano, Gil, Bethânia... Ninguém fugiu do barzinho. Do sul portoalegrense dos irmãos Kleiton e Kledir ao nordeste forrozeiro de Elba e Zé, ninguém passou ileso pela dor e a delícia de um violão e voz na boemia alheia e, finalmente posso dizer que, nem eu.

Desde menino, quando o pai emendava as festas da casa de praia no ‘Violão do Porto’, pra ouvir a versão mosqueirense do Chico Buarque, já ficava atento. “Como aquele cara decora todas aquelas canções? Como toca ritmado acordes dissonantes?”, me questionava sincero e cheio de vontade de fazer igual.

Depois dos 15, já mais moço, a mãe enchia a casa de cantores da cidade, lhes dando guarida e o nosso carinho, as Giseles (Gris e Furtado) foram as que, com certeza, me marcaram definitivo. Compus algumas canções inesquecíveis com as duas e foi segurando as mãos delas que dei minhas primeiras canjas na noite paraense.

De lá pra cá, misturei minha voz com a do mestre Renato Torres em parcerias nossas e em noites memoráveis no ‘Babitonga’, com a dadivosa Verena Torres. Um sem-número de vozes com mil e uma histórias para contar e cantar. Aquilo sempre, de alguma forma falou alto dentro de mim também.

Pois bem, chegou a minha vez. Não posso cometer o pecado de não mencionar que o casal Sullivan, que são as mãos nas minhas costas à me empurrar pra frente na música e na poesia, que me emprestaram toda a parafernália necessária para se fazer um som com o mínimo de qualidade.

Movido por uma paixão antiga e encorajado pela mulher da minha vida, que costuma dar asas aos meus sonhos malucos, me ofereci pra cantar em um restaurante na Ilha (do Governador) e acabo de voltar de lá com a sensação ainda viva e pulsante no peito.

Engraçado os malabarismos necessários para roubar a atenção dos clientes que chegaram ao local com a única necessidade de saciar a fome. Como ser mais interessante cantando do que um prato bem servido na hora do meu refrão? Ali, no banquinho, ao lado do meu fiel escudeiro Felipe Guedes, com o violão em riste, desafiava um falsete blues em ‘Oceano’, depois um vocalize lúdico em ‘Codinome Beija-flor’ até, acho que acertar a mão e trazer eles de volta pra mim.

Mal puxava o Cartola numa interpretação emocionante, ensaiada com poemas no solo e tudo, e o garçom já puxava meu tapete voltando pra avisar à família atenta que o guaraná acabara. O que fazer? ‘Todo artista tem que ir aonde o povo está’, como sabiamente previa Bituca. Eu aceitava o desafio.

Foram três horas lutando entre prato principal e sobremesa até que, na hora do cafezinho o restaurante veio comigo em coro “Eu quero é viver em paz, por favor me beije a boca, que louca, que louca...” Senti ali que a guerra tinha valido a pena.


Pensei no Djavan, tentando um lugar ao sol fazendo piano bar na zona sul, no Chico, ao lado do Toquinho, cantando cem vezes ‘A Banda’, num castelo na Itália no aniversario de uma duquesa cheia de convidados blasé. Pensei em mim ali, desarmado, mas ardendo à minha própria paixão, sem saber se estava pisando em falso na corda bamba da minha própria vida, onde pode acontecer tudo, inclusive nada... Domingo que vem parece que tem mais.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Labidad

À Glaucio, Flávia, Renato e Junior



Em Belém, existia um Colégio chamado Moderno e que levava muito a sério esse nome. Foi um dos primeiros a se tornar misto no Brasil, aceitando matrículas tanto de homens quanto de mulheres e aos poucos virou referência em educação e um dos mais definitivos incentivadores da cultura e do esporte, ao formar times importantes nas mais diversas modalidades e elencos de teatro e dança respeitados, sem falar nos músicos de bagagem que passaram a ser conhecidos no Brasil e no mundo como Pedrinho Cavalléro, Leila Pinheiro e tantos outros.

Eu tive a sorte de estudar lá ao longo de toda a minha vida escolar, do maternal ao convênio (como é chamado o terceiro ano do ensino médio na cidade). Nessa época, a gestora-mor da escola era a professora Marlene Vianna. Uma visionária com olhar sensível ao ser humano, daquelas de provocar suspiros até no Frei Beto. 

Foi sob a batuta dela que, na minha juventude, foi fundado o Núcleo de Artes e Esportes do Moderno, coordenado por um professor controverso pela rigidez, mas cheio de inspiração que era capaz de ensinar a vida enquanto se dividia entre as funções de educador físico e mentor intelectual do núcleo, o nome dele é Gláucio Sapucahy.

Além das equipes de esportes, era responsabilidade dele supervisionar os grupos de Dança, liderado pela intelectual e revolucionária pesquisadora do movimento Ana Flávia Mendes, com quem Gláucio veio a casar, teatro e música, regidos pelos poetas inspiradores Dionelpho Jr e Renato Torres.

O desafio do núcleo era manter uma rotina cultural na escola onde os alunos teriam contatos semanais com as diversas linguagens artísticas e espetáculos de dança e teatro anuais que protagonizariam pautas nas principais casas de eventos da capital paraense com requinte profissional. Além disso, seria necessário para o núcleo, manter a tradição de festivais que estimulariam a produção musical e poética dos estudantes da minha geração. 

Isso tudo além de ensinar o trivial, português, geografia, matemática... Parece um sonho né? Mas era realidade. Vivi um apogeu educacional onde nos era lícito compor e cantar nos intervalos musicais do recreio, dançar e interpretar nas feiras culturais com a liberdade de um artista de verdade.

Foi nesse contexto de festivais de música e poesia que aos poucos grandes personalidades artísticas foram sendo lapidadas.

O primeiro que participei foi em 2001. Tinha acabado de ingressar no grupo de teatro e me unido muito aos atores do elenco. Passamos a fazer tudo juntos. Assistíamos aulas uns nas salas dos outros, emendávamos os ensaios da peça com reuniões nas casas da turma e fomos absolutamente estimulamos por Dionelpho e Renato a mudar a nossa ótica habitual pela poesia.

Ali passamos a ser capazes de lançar mão de metáforas e abstrações cada vez mais precisas, até que criamos uma espécie de sociedade de poetas vivos, que costumeiramente se reunia no bosque da cidade para declamar, cantar e compor, ao qual batizamos Labidad (uma abreviação de bom gosto do termo Labirinto Dadivoso) que designava aquilo que apesar de complexo, nos preenche de prazer.

O resultado de um dos primeiros encontros do Labidad foi a composição da canção "Ver de começo", escrita pelas, então, atrizes Daiane Gasparetto, Márcia Dantas e por mim. A música se tornou uma espécie de hino premonitório de três crianças audaciosas, mas muito conscientes de que o que estava nascendo ali não era apenas um grupo de teatro de escola, mas um movimento cultural avassalador e definitivo, bom, pelo menos pra nós.

Ver de Começo
No meio desse tudo, sinto ser o que se sente
Poetas à procura de inspiração e semente de folha seca
E desejo que permita que para sempre continue
A virgindade poética de sermos tão especiais, quanto geniais e sempre
Mesmo que ultrapassados contemporâneos amantes da poesia
Da poesia
Diante dos que passam lúcidos somos à procura
Do qual estreante ritual
Ver de começo
Começo a ver, começo a ver o ver de começo
Ver de começo
Começo a ver, começo a ver o ver de começo
Fora o início
Fora a junção
Que por membranas na cabana
Que pedem pra que possam seguir
Onde cada coisa tem forma
Poetas a procura de folha seca
E desejo que permita
A virgindade poética de sermos
Quem quer verdecer? Eu quero ver!
Quem quer verdecer? Eu quero ver!
Ver de começo
Começo a ver, começo a ver o ver de começo

O fato é que inscrevemos a canção no festival de música do Colégio, o Fest Moderno, daquele ano. Na noite de apresentação, surgimos com figurinos coloridos, atitude cênica e divisões vocais bem elaboradas. Estávamos inventando o nosso tropicalismo com ares de doces bárbaros sem saber. Não ganhamos o festival, mas sabíamos que alguma coisa diferente acabava de nascer.

Nos anos seguintes em interpretações conjuntas ou solo nossas vidas passaram a contar com esse evento anual que mexia incrivelmente com a nossa criatividade e gerava certa competitividade poética saudável.

No meio dos baladas de amor adolescente em forma de rock ou pop, que eram característicos de festivais escolares de música, inscrevíamos baiões e xaxados, saboreando uma brasilidade ufanista com letras cada vez mais experimentais e recheadas de performances ousadas.

Depois de faturarmos o sétimo lugar daquele ano, nos separamos e preparamos canções solo ou com novos parceiros. Aos poucos esse movimento que nasceu no Núcleo de Artes ia ganhando adeptos. Vitor Nina, que estudava na minha sala entrava para o elenco na curva final da temporada de nosso espetáculo teatral e logo passou a integrar o Labidad com versos byronianos e um violão recém-aprendido que conduzia muitas das nossas reuniões.

Junto com ele escrevi diversas parcerias e uma delas faturou o prêmio de terceiro lugar do ano seguinte no Fest. Um baião moderno com letra nonsense chamado “O Barranco e o Zé pelling”. Os versos eram tão confusos que na eliminatória esqueci a segunda estrofe inteira e, por mais que os colegas e concorrentes gritassem solidariamente os versos da coxia, tive que improvisar uns vocalizes ‘edmottianos’ e convenci os jurados que me aprovaram para a final na noite seguinte.

O Barranco e o Zé Pelling
Passei por cima do barranco e
do meu terno branco só sobrou Zé pelling
Recauchutado, amarrado zabumba do viado
 dando em cima de mim
Pro resto do cristal que vi na lata do lixo,
pisado que nem chiclete,
cuspido feito cupido peste
Passei por cima do espaço
no meio do compasso foi que me confundi
Mistura doida de fermento e aço
nagô e pedaço Zabumba e zé pelling
Na costa do vitral que vi
Recauchutado na beata que se descola em mulata
quando ouve um tamborim
O tamborim quem toca é nego com fome,
 Vira lobisomem ou se desfaz assim
Mistura doida de asfalto e gente
onde a outra dorme e toma o teu lugar
Cachaça ou onda de bebida quente,
veneno de serpente pra te apunhalar
Mistura doida de fermento e aço
nagô e pedaço Zabumba e zé pelling
Zabumba e zé pelling ôh um ôh Um ôh!!!

No mesmo ano aproveitei a oportunidade de duas canções por participante e inscrevi a balada “Pedra em Flor”. Num romântico pop, meio Frejat, a canção destoava um pouco da linha que o Labidad vinha produzindo e fui acusado de ter cedido ao mercado, aos 15 anos... Uma profanação deliciosa da nossa construção poética. Faturou o segundo lugar, perdendo para a belíssima “Fim de dezembro”, da Daiane, que trouxe a poética da pequena notável mais para o chão, tornando-a mais acessível ao público.

Pedra em Flor
Então eu posso ver
A pedra se difundir em flor
Do gozo de quem nunca amou.
Quero conhecer, o medo de um amor
Fugacidade no elevador
Mas o 13 não chega nunca,
a firmeza do bem estar
Por que é que saiste de mim?
Só pra eu nunca me encontrar eu vou,
eu vou até o fim
Eu vou até o fim do mundo pra te buscar
Vou refletir a lua no mar
O mar na lua
Você nua e eu no altar só pra ver
A pedra se difundir em flor
Do gozo de quem nunca amou
A pedra se difundir em flor
Do gozo de quem nunca amou Nem a si


Fim de Dezembro
Ao entrar em fresta de janela
Cheiro de canela, soa assim assim
Sendo o fim de dezembro,
Amor ainda lembro do ano de jasmim
Flores, desastres clamores
Toca fita fica sendo assim
Por isso eu canto
Pra afinar meu sentimento
No meu quarto sinfonia melodia brisa da manhã
Cheiro que erradia
Brasa que tardia
A noite chega fria
despedida de coração

Um ano depois, descobrimos todos juntos o clube da esquina e o mentor Renato Torres, trouxe para a roda o livro ‘Os Sonhos não envelhecem’, do Márcio Borges. Nina empregou sua verve poética na composição de uma valsa emocionante, que ganhou ainda mais densidade na interpretação da veterana do festival Verena Torres, que gozava de seu último ano no Moderno e já tinha arrebatado vários prêmios do Fest em edições anteriores com o seu grave marcante e sua timidez romântica.

Segunda Voz
Calma, é só tua alma
É a minha saia, é o que te envolve
É o que eu cego, é o que tu sorves
É a minha sede de me molhar.
Calma é a tua espada é a minha lira
A minha ira
É a minha febre, é o que eu não nego
É o que te fecha
O que me enfesta
O sol e o medo
É o que te espera
Calma, tu és a noite
Eu sou o dia
Eu sou a noite
Tu és o dia
Eu sou o meio
Calma, eu sou tua casa
Eu sou o teu seio
Sou o que vejo
Calma, que eu sei teu nome
O que ninguém sabe
Sei por inteiro
Caiba, que tudo cabe
Da tua roupa ao
meu primeiro medo

Nessa edição eu tinha inscrito um maracatu groovado, super influenciado pelo Lenine, que eu acabava de descobrir em um show do Sesc que marcou a cidade, ao lado de Paulinho Moska e Nilson Chaves numa fita cassete que a Daiane tinha gravado da transmissão da Rádio Cultura. Minha canção se chamava ‘Vá idade’ e já narrava essa experiência da adolescência.

Vá idade
Tão logo venha minha novidade
Minha Nova idade, meu ancestral
Pra pouca idade digo mocidade
Para seu excesso Morte Funeral
Arbítrio de ter estampado na cara o tempo que passou
Vontade de ter a metade da idade vaidade de ser quem sou
Pelos pêlos e suas cores vejo amores que não vivi
E pelas rugas ressaltam as dores tragédias e flores que já sofri
Quando tão velho, me sinto óbvio
Quando tão óbvio, claro demais
Quanto mais claro, mais novo
Na idade o tempo jaz
Lá fora a paisagem corre tão devagar,
que nem dá pra ver, que nem dá pra ver
Posto que é vida qualquer caminhar,
Estou de frente pra idade que vou ter
E ela parece cansada demais
Adormece antes da prece.

Contra meu maracatu, Daiane inscreveu ‘Cinzeiro’, uma experimentação ainda mais aguçada com a palavra que arrancou aplausos efusivos ao fim de sua interpretação inusitada. Ela tinha a doçura da Nara Leão e a loucura de Tom Zé, numa mistura apaixonante.

Cinzeiro
Pé de barro que seca a seco
Pisa no alto do relevo
Pede a seca do sol
Onde já há
Solos molhados de espera
Onde há aterro atado às artérias
Onde há canteiro cantado no que era
Cinzeiro da certeza à espera
Na planta do nascer do sol

Sina de quem já consumiu
Sete relógios e não dormiu
Some no vácuo junto a quem pede queimado de anzol
Contando os poros na derme já preta
Furando os tombos por cair em cercas
Furtando os homens pintados na mesa
Que sangram a sorte no punhal

Márcia Dantas defendeu suas duas composições com a sensualidade precoce de uma musa, trouxe emoção a melodia madura que ela propunha. Outra que integrou o time foi a Paloma Amorim, filha da fina flor do teatro paraense, trouxe o teatro para dentro do festival de música com a baladinha “Menina da contra mão”, que era um tanto quanto autobiográfica e agente adorava.

No meu último ano de Moderno, Daiane e eu escrevemos ‘Armação’ e defendemos juntos. Foi sincero, emocionante e absolutamente lírico. Pena que os jurados não acharam o mesmo e nos deram uma pontuação baixa que nos passou arrastado para a final, mas nos colocou na sexta posição aquele ano.

Armação
Fui me arrumando
pra beber água e não bebi
Fui arrumando uma desculpa pra não te ver
E não te vi
Fiquei desarrumado ao saber que você se arrumou por lá
E há rumores de que os amores de lá são arrumados
Arrumam a língua apertada pra falar qualquer palavra
E caem na desarrumação, armação
Armação que mata a sede, quebra pote e invade,
E mata minha ânsia mareada,
Invada o rumo pra que encontre o ar
Armar, arrumar ar

A verdade é que as colocações e as notas nunca foram o motivo principal da nossa produção poética. A maravilha dos ensaios com a banda base, a rotina lírica dos conselhos e abraços, a amizade definitiva e a sensibilidade aguçada pelos nossos mestres era a verdadeira causa de toda a nossa dedicação que se legitimava no contato com a plateia na hora do nosso show.

Logo após termos concluído o ensino médio, foi autorizada a inscrição de antigos alunos, assim, Daiane se uniu à outros três bailarinos da Cia Moderno de Dança, que já participaram de maneiras diretas ou indiretas do festival de música Cristian Perrotta, que mais tarde veio a desenvolver suas habilidades musicais com formação, Ercy Souza, que segue escrevendo poesia e Feliciano Marques, com quem dividi lado à lado boa parte da minha formação artística e educacional numa amizade definitiva. O conjunto batizado de ‘Caixa à 4’ tinha uma performance percussiva contagiante, onde uma grande caixa era ao mesmo tempo palco de sapateado e atabaque baiano, sob o comando da poesia visceral da vocalista. A canção defendida foi ‘Antinome’.

Antinome
A entrada do anticorpo
Na ante-sala
Um desgosto
Puro descendo sangue
Inflamando artéria, arterite
Ele não era ela, ele era it
Antenome pessoal
Sexo indefinido
Um estrangeiro rompendo
O sangue venenoso
Água, memória filética
Universo e sal
Medula embalsamada 
Na espinha de peixe, um mal
Criado na comoção do gosto
O rosto composto grita

Vivemos a era dos festivais em pleno século 21. Forjamos figurinos, interpretações e muitos versos nos redescobrindo artistas e amantes da poesia. O que o ‘Ver de começo’ preconizava de fato se deu, o colégio Moderno cumpriu sua função nas nossas vidas.

Hoje somos psicólogos, médicos, jornalistas, atores e atrizes, músicos e, sobretudo, poetas. Somos uma geração de modernistas que pôde usufruir o melhor da arte em horários letivos sem culpa e sem vergonha. Tivemos a sorte do destino ao nosso lado. Sem falar no maravilhoso mundo do movimento que a Companhia Moderno de Dança abriu com suas pesquisas profundas e audaciosas, mas isso já é uma outra história...

Infelizmente, notícia vinda da estrada, os líderes da escola tiveram que entregar suas gestões e esse templo encantado da cultura cedeu ao capital. Parece que o núcleo de artes hoje dá espaço à mais salas de aula preparatórias de pré-vestibular e nunca mais nenhum aluno foi instruído a cantar, dançar ou compor em seus corredores.


Mas a boa notícia é que o Labidad segue imortal dentro de quem viveu e viu uma fase onde alunos eram pessoas encantadas pelo ensino livre de professores que ardiam à própria paixão de ensinar.