Tive um fim de semana hilário na companhia dos
irmãos do meu sogro. Quatro figuras espirituosas, que aos poucos ultrapassam os
60, e que carregam junto com a maturidade um humor ácido agudo que preserva
certa jovialidade por trás das marcas do tempo. Experiência e adaptação com a
nova fase da vida dialogando entre piadas verossímeis até onde a memória
alcança.
No primeiro momento, quando se encontraram, a
sensação que tínhamos era a de recreio escolar sem merenda. Entre risos e
abraços, “Lembra de fulano?”, “Naquele tempo não sei onde”, “Isso foi não sei
quando”... Uma colcha de retalhos das lembranças íntimas daquela turma de sexagenários
descolados deu o tom dos próximos dois dias live in Araruama Beach!
Aos poucos os traços de personalidade de cada um
deles ia tomando forma. Uma mais recatada e direta, outra desinibida e ágil, um
que falava verdades entre risos e o anfitrião, meu sogro, com mal humor cômico
e crônico dotado de uma velocidade de raciocínio brilhante.
O circo estava armado para as cenas familiares mais
improváveis com personagens dignos da melhor chanchada brasileira, com direito a
apelidos e jargões infames ao melhor estilo ‘Atlântida’.
Inevitavelmente me senti como que vivenciando as
páginas do livro com a qual Fernanda Torres debutou fabulosa na literatura. “Fim”,
que narra a história de cinco cariocas na etapa final da vida rememorando os
anos de desbunde. Uma construção textual que melhor seria se considerada,
arquitetura de palavras, tamanha a minucia com a qual a escritora lança mão de
seu talento de atriz para encarnar as personagens antes de escrevê-las e, por
isso mesmo, dotado de uma humanidade típica da boa ficção.
No churrasco sabático foi exatamente como no livro
da atriz, as piadas vinham como refluxo das desavenças do passado e os momentos
mais constrangedores da vida deles se tornava, com naturalidade, a pauta
hilária do almoço, com aquela sensação enorme de que em certa altura da vida
não há nada a se perder e tudo pode e deve se recriar com a leveza da
maturidade.
Nós, os jovens, tínhamos muito pouco ou quase nada
a contribuir àquele carrossel de narrativas que quase sempre desaguava na
explosão de risos de si mesmo, onde era possível extrair, sem caretice, inúmeras
aprendizagens. Então, nos resignamos à emprestar com prazer a nossa atenção e
contribuir com gargalhadas sinceras.
Do alto dos meus vinte e muitos, me questionei
sobre a existência sem premeditação: Então, é isso que é a vida a final. A
gente leva tudo tão a sério, correndo atrás de um tempo que nunca alcançaremos
e tentando vencer uma luta ganha com ela para, no fim, desfazermos uma mala de
vivências que precisam valer a pena, ainda que seja para o riso mais ingênuo.
Estar vivo hoje é ter lápis e papel em punho para
escrevermos a história que quisermos (ou pudermos), para, quem sabe, termos uma
família feliz a nossa volta a quem possamos ler o que foi que a gente viveu.
Isso basta!
A verdade é que depois de um tempo começamos uma
contagem regressiva involuntária. E a questão é a nossa escolha entre contar
números finitos ou palavras de histórias que imortalizarão o que fomos um dia.
Nesse fim de semana aprendi que a maturidade desacelera
nossa ansiedade e que nada na vida é tão sério que não mereça boas doses de
ironia. Nem a corrupção que assola o nosso país, nem a massa de manobra a qual
podemos nos tornar se resolvermos pintar a cara e escolhermos o lado errado da
pista.

Fim de semana recheado em mano... que maravilha.... boa semana!
ResponderExcluirAdorei o texto!E existe fim da vida? Um minuto pensando na morte é um minuto morto. E pra que serve viver senão para celebrar encontros? Rir de nós mesmos, e de nossas possíveis agruras é o que eu realmente chamo de maturidade inteligente.
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