segunda-feira, 14 de março de 2016

Atlântida Familiar



Tive um fim de semana hilário na companhia dos irmãos do meu sogro. Quatro figuras espirituosas, que aos poucos ultrapassam os 60, e que carregam junto com a maturidade um humor ácido agudo que preserva certa jovialidade por trás das marcas do tempo. Experiência e adaptação com a nova fase da vida dialogando entre piadas verossímeis até onde a memória alcança.

No primeiro momento, quando se encontraram, a sensação que tínhamos era a de recreio escolar sem merenda. Entre risos e abraços, “Lembra de fulano?”, “Naquele tempo não sei onde”, “Isso foi não sei quando”... Uma colcha de retalhos das lembranças íntimas daquela turma de sexagenários descolados deu o tom dos próximos dois dias live in Araruama Beach!

Aos poucos os traços de personalidade de cada um deles ia tomando forma. Uma mais recatada e direta, outra desinibida e ágil, um que falava verdades entre risos e o anfitrião, meu sogro, com mal humor cômico e crônico dotado de uma velocidade de raciocínio brilhante.

O circo estava armado para as cenas familiares mais improváveis com personagens dignos da melhor chanchada brasileira, com direito a apelidos e jargões infames ao melhor estilo ‘Atlântida’.

Inevitavelmente me senti como que vivenciando as páginas do livro com a qual Fernanda Torres debutou fabulosa na literatura. “Fim”, que narra a história de cinco cariocas na etapa final da vida rememorando os anos de desbunde. Uma construção textual que melhor seria se considerada, arquitetura de palavras, tamanha a minucia com a qual a escritora lança mão de seu talento de atriz para encarnar as personagens antes de escrevê-las e, por isso mesmo, dotado de uma humanidade típica da boa ficção.

No churrasco sabático foi exatamente como no livro da atriz, as piadas vinham como refluxo das desavenças do passado e os momentos mais constrangedores da vida deles se tornava, com naturalidade, a pauta hilária do almoço, com aquela sensação enorme de que em certa altura da vida não há nada a se perder e tudo pode e deve se recriar com a leveza da maturidade.

Nós, os jovens, tínhamos muito pouco ou quase nada a contribuir àquele carrossel de narrativas que quase sempre desaguava na explosão de risos de si mesmo, onde era possível extrair, sem caretice, inúmeras aprendizagens. Então, nos resignamos à emprestar com prazer a nossa atenção e contribuir com gargalhadas sinceras.

Do alto dos meus vinte e muitos, me questionei sobre a existência sem premeditação: Então, é isso que é a vida a final. A gente leva tudo tão a sério, correndo atrás de um tempo que nunca alcançaremos e tentando vencer uma luta ganha com ela para, no fim, desfazermos uma mala de vivências que precisam valer a pena, ainda que seja para o riso mais ingênuo.

Estar vivo hoje é ter lápis e papel em punho para escrevermos a história que quisermos (ou pudermos), para, quem sabe, termos uma família feliz a nossa volta a quem possamos ler o que foi que a gente viveu. Isso basta!

A verdade é que depois de um tempo começamos uma contagem regressiva involuntária. E a questão é a nossa escolha entre contar números finitos ou palavras de histórias que imortalizarão o que fomos um dia.


Nesse fim de semana aprendi que a maturidade desacelera nossa ansiedade e que nada na vida é tão sério que não mereça boas doses de ironia. Nem a corrupção que assola o nosso país, nem a massa de manobra a qual podemos nos tornar se resolvermos pintar a cara e escolhermos o lado errado da pista.

2 comentários:

  1. Fim de semana recheado em mano... que maravilha.... boa semana!

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  2. Adorei o texto!E existe fim da vida? Um minuto pensando na morte é um minuto morto. E pra que serve viver senão para celebrar encontros? Rir de nós mesmos, e de nossas possíveis agruras é o que eu realmente chamo de maturidade inteligente.

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