segunda-feira, 25 de abril de 2016

Ordem e progresso?



"A ponte é o abraço do braço do mar
Com a mão da maré..."


Nesse feriado escolhi me desligar da realidade e mergulhar na ficção. Explorei o Now e o Netflix até as últimas consequências. 

Espremi ao máximo e me deleitei com séries de terror, romance e comédia, entrevistas deliciosas e muito cinema. Finalmente assisti e me revoltei com Spotlight, atualizei a temporada de grey's anatomy e detestei a nova produção com Ashton Kutcher.

Para oxigenar um pouco, minha mulher e eu fomos dar um giro em Niterói e acabamos na praia de Itaquatiara para mergulhar mais fundo em outra ficção, a da beleza natural. Mar azul, areia branca, céu claro... Ar puro!

Na volta pra casa, inevitavelmente numa zapeada de canal, a realidade: a ciclovia Tim Maia recém inaugurada vem abaixo com a ressaca das ondas e deixa duas vítimas, talvez três!

Junto com a ciclovia, nossa dignidade de cidadão também despenca. Pagamos impostos altíssimos, a maior quantidade do mundo, e tudo o que nos dão em troca é desmando.

Obras como essa, superfaturadas e feitas a toque de caixa estão tatuando o Rio em toda parte. Sob o cronometro das Olimpíadas, pontes, ruas e viadutos são entregues sem a mínima segurança e a preços exorbitantes, uma vergonha pessoal de ser brasileiro.

Como não prever o mar? Como não supor na engenharia estrutural que a natureza suporta o homem até um limite tangível?

Rapidamente as redes sociais são inundadas por uma avalanche de construções mais inteligentes em outros países, onde uma violência dessa natureza jamais passaria.

Penso nos entes das vítimas obrigados a seguir pagando impostos criminosos, sustentando o salário dos algozes à luz de sua própria dor.

Nenhuma ficção hollywoodiana é tão inverossímil quanto os últimos acontecimentos no Brasil... Nem House of Cards sustentaria nossa bancada política, de Jean à Bolsonaro a corja é de um limite farsesco que as novelas mexicanas do SBT atendem melhor à nossa credulidade. 

Que o Rio continue lindo apesar das pontes estaiadas e dos viadutos que suturam a paisagem, que a cidade não faça mais vítimas e que a realidade vença a ficção na vida e nas urnas... Deus esteja!

Quanto à Ciclovia Tim Maia inaugurada no dia 17 de janeiro deste ano... Me diz, quanto foi?

44 milhões de reais!


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Impotência nacional


Há no leito das coisas uma sanha medonha de contentamento.
Frívola vontade inerte de nem desejar.
Percebo no canto dos pássaros certo comodismo, como se a asa fosse mais que o céu quando se abre.
Tenho em mim que as coisas se conformaram.
Vento sopra sem pretensão de ventania, chuva chove sem ânsia de tempestade... É tudo calma, menos em mim!
Em mim, sigo sedento de sede. Buscando uma nova procura, querendo encontrar o que nem sei!
Passo as tardes adivinhando o tempo e indagando sincero sobre o princípio, o meio e o fim da vida.
Ah, quisera eu ter a placidez dos peixes, conformados com o sal da água, quando salgada, insípida quando doce... 
Recosto meus pensamentos mais ineficazes no que tem vida, vejo até nas formigas uma falta de audácia carregando o mundo, mas saboreio na resistência das plantas a vontade irmã da minha de não conter na raiz o que alcançamos no galho!
A vontade do salto que pertence às flores, o ciclo de vida e morte tentando as estações, suportando os dias à espera sem esperança de um dia ser maior, de poder com a morte, de ser mais forte que o tempo!
É essa a minha vocação... A de nunca chegar à margem alguma e ainda assim remar!

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Uma Rosa da minha terra



O conterrâneo é o parente onde a geografia cumpre o papel do laço sanguíneo. Nem precisa ser da mesma família para notar muito parecido um jeito de falar, uma preferência musical, uma ótica pela qual se enxerga o mundo.

O conterrâneo, assim como o parente, preserva referências afetivas comuns, nutre expectativas gêmeas a respeito de mudanças políticas e carrega uma espécie de semelhança abstrata que os une, ainda que já não vivam na terra onde nasceram.

Aliás, para quem vive longe da terra de nascença, então, o encontro com um conterrâneo é um isopor para um afogado. Intimidades logo são estabelecidas e a memória da cidade, onde se nasceu, reascende um saudosismo particular e confidente. Já não estamos sós e temos parte nesse mundo com alguém. Ufa!

Neste sábado, tive esse tipo de salvação. Completando 60 anos de carreira, Rosa Maria Murtinho, minha conterrânea, foi anfitriã de uma comemoração dedicada à sua própria história em cena. Assisti-la ao vivo me encheu de vida.

Dirigida pelo jovem Jorge Farjalla, Rosa Maria escolheu soprar essas velas no palco e bem longe da zona de conforto. Encarnou a amargurada ‘Dona Flávia’, numa adaptação poética de ‘Dorotéia’, do anjo pornográfico, Nelson Rodrigues.

Quase três horas em cena, a atriz prova que a experiência vence a idade, e com seus mais de 70 anos de vida, dançou, gritou, chorou, gemeu, caiu e levantou com a avidez de uma menina, magia que o teatro proporciona ao brindar atores e público com o tempo encantado do faz de conta.

A revelia da tradição na qual as atrizes costumam comemorar suas datas importantes com monólogos, a paraense trouxe junto com ela um elenco brilhante que deu suporte à narrativa rodriguiana complexa, na qual se faz necessário mudar a atenção objetiva por uma leitura abstrata, razoando metáforas para explicar o inexplicável.

‘Dorotéia’ é a derradeira peça do ciclo das obras do Teatro Desagradável, como Nelson descrevia, e narra o encontro entre a beleza e a feiura, numa disputa por espaço dentro da gente. Composta por grandes atrizes, músicos com habilidade cirúrgica na precisão do som, um cenário inteligente e refinado, além de caracterizações impecáveis, a montagem do Farjalla contou ainda com a interpretação inenarrável de Letícia Spiller, que há muito não precisa provar que a paquita deu espaço à uma atriz inteira e definitiva.

Com a nudez e o humor característicos das construções de Nelson Rodrigues, a peça é um convite à reflexão da aparência atualíssimo, embora escrita em 1949. E, como tipicamente o autor é capaz, joga o expectador diante do espelho onde o que há de belo e terrível em nós vem à tona.

Rosa Maria Murtinho é um espetáculo dentro do espetáculo e faz às vezes iconoclástica de destruir as grã-finas das novelas das oito e nos presentear a todos com um talento retumbante de uma atriz que não se entregou ao caloroso ambiente do sucesso, escolhendo se reinventar diante dos nossos olhos emocionados.

Mesmo que ela tenha saído ainda pequena da minha cidade, trato meu carinho por Rosa como o carinho de um ente da família, uma legítima conterrânea, alguém que carrega consigo o que eu também carrego comigo.