Dia desses, me deparei com uma frase da Clarice que
me deixou intrigado: “Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não
ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir”. Dita assim, como
um disparo, não me fazia muito sentido. Cognitivamente compreendia, porém na
prática tratava-se de um raciocínio um tanto quanto intangível. Até que
descobri o disco ‘Vento de maio’, de 1967 da, ainda pouco conhecida pra mim,
Nara Leão.
Que presente maravilhoso a arte nos propicia. Ter
contato com produções que fizeram parte da nossa construção afetiva
inconsciente e, num segundo, nos ver revelados por uma obra, que sempre esteve
ali.
Com canções de Gil, Ary Barroso, Vinícius e muito
Chico Buarque, o álbum é uma miscelânea de maravilhas da nossa música, quase
sussurradas por essa mulher que, até então pra mim era um nome familiar, mas
pouco íntimo.
Ali entendi a frase de Lispector.
Não trata-se do timbre inimitável de Elis, tampouco
da dramaticidade de Maysa, contemporâneas de música e de amor da Nara, se trata
de uma voz absolutamente dotada de personalidade e entrega, mais comum à
cantoras de hoje, como Céu ou Tiê. Um canto que assume mais da vocação e menos
do talento, pelo menos do pré-estabelecido no mainstream, acho ótimo.
O fato é que, enquanto as rádios executavam as
desventuras amorosas e abandonadas das grandes vozes como Ângela Maria e Dálva
de Oliveira, um apartamento na Avenida Atlântica era o cenário de uma nova
forma de narrar a vida por meio do encontro entre um banquinho e um violão...
Nascia a Bossa Nova e Nara Leão, com sua voz tímida e olhos enormes, era a
cúmplice absoluta desse crime fantástico.
Como que como um pretexto para me fazer ainda mais
fã dessa mulher, ao romper com Ronaldo Boscoli, a cantora rompe também com a
Bossa, que acabara de inventar e se tornar a sensação da garotada naquele
período. Dá ouvidos à um tal de Zé Keti, funda o Teatro Opinião com a maestria
de uma estrela, sem contudo, emitir grandes notas sem desafinar, puro
compromisso com a vocação de se expressar com paixão e fúria.
Começa a cantar música de protesto, é ameaçada
pelos militares e defendida por um poema de Drummond, escrito para este fim,
torna-se a musa da música brasileira com mais timidez que voz. Um milagre
possível naqueles tempos.
Com a docilidade da interpretação de Nara e o
“Vento de Maio”, aprendi que ‘Com açúcar e com afeto’, qualquer verdade vale
mais que uma bela voz pra fazer nascer uma canção.
Sua genialidade era tamanha que foi a Menina
Opinião que fez frente à movimentos posteriores como a tropicália e que cedeu,
literalmente o palco para outra gigante brilhar com seu ‘Carcará’, Bethânia.
Mais tarde, ainda uniu o samba do morro com a
plateia do asfalto e fez brilhar, através de sua pouca voz, nomes como Roberto
e Erasmo (personas non gratas nas rodas cariocas burguesas).
Um ano depois que eu nasci, Nara nos deixou aos
precoces 47 anos de idade, vítima de um tumor inoperável no cérebro. Deixou no
mundo, além de belíssimas interpretações, dois filhos, que teve com o cineasta
Cacá Diegues e uma lição única, a de que a impossibilidade não pode com a
paixão.
A revelia da frase de Clarice, Nara foi chamada e
encontrou sua própria maneira de ir, inóbvia, singular e genial.





