domingo, 8 de maio de 2016

Nara, brilho forte de voz miúda



Dia desses, me deparei com uma frase da Clarice que me deixou intrigado: “Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir”. Dita assim, como um disparo, não me fazia muito sentido. Cognitivamente compreendia, porém na prática tratava-se de um raciocínio um tanto quanto intangível. Até que descobri o disco ‘Vento de maio’, de 1967 da, ainda pouco conhecida pra mim, Nara Leão.

Que presente maravilhoso a arte nos propicia. Ter contato com produções que fizeram parte da nossa construção afetiva inconsciente e, num segundo, nos ver revelados por uma obra, que sempre esteve ali.

Com canções de Gil, Ary Barroso, Vinícius e muito Chico Buarque, o álbum é uma miscelânea de maravilhas da nossa música, quase sussurradas por essa mulher que, até então pra mim era um nome familiar, mas pouco íntimo.

Ali entendi a frase de Lispector.  

Não trata-se do timbre inimitável de Elis, tampouco da dramaticidade de Maysa, contemporâneas de música e de amor da Nara, se trata de uma voz absolutamente dotada de personalidade e entrega, mais comum à cantoras de hoje, como Céu ou Tiê. Um canto que assume mais da vocação e menos do talento, pelo menos do pré-estabelecido no mainstream, acho ótimo.

O fato é que, enquanto as rádios executavam as desventuras amorosas e abandonadas das grandes vozes como Ângela Maria e Dálva de Oliveira, um apartamento na Avenida Atlântica era o cenário de uma nova forma de narrar a vida por meio do encontro entre um banquinho e um violão... Nascia a Bossa Nova e Nara Leão, com sua voz tímida e olhos enormes, era a cúmplice absoluta desse crime fantástico.

Como que como um pretexto para me fazer ainda mais fã dessa mulher, ao romper com Ronaldo Boscoli, a cantora rompe também com a Bossa, que acabara de inventar e se tornar a sensação da garotada naquele período. Dá ouvidos à um tal de Zé Keti, funda o Teatro Opinião com a maestria de uma estrela, sem contudo, emitir grandes notas sem desafinar, puro compromisso com a vocação de se expressar com paixão e fúria.

Começa a cantar música de protesto, é ameaçada pelos militares e defendida por um poema de Drummond, escrito para este fim, torna-se a musa da música brasileira com mais timidez que voz. Um milagre possível naqueles tempos.

Com a docilidade da interpretação de Nara e o “Vento de Maio”, aprendi que ‘Com açúcar e com afeto’, qualquer verdade vale mais que uma bela voz pra fazer nascer uma canção.

Sua genialidade era tamanha que foi a Menina Opinião que fez frente à movimentos posteriores como a tropicália e que cedeu, literalmente o palco para outra gigante brilhar com seu ‘Carcará’, Bethânia.

Mais tarde, ainda uniu o samba do morro com a plateia do asfalto e fez brilhar, através de sua pouca voz, nomes como Roberto e Erasmo (personas non gratas nas rodas cariocas burguesas).

Um ano depois que eu nasci, Nara nos deixou aos precoces 47 anos de idade, vítima de um tumor inoperável no cérebro. Deixou no mundo, além de belíssimas interpretações, dois filhos, que teve com o cineasta Cacá Diegues e uma lição única, a de que a impossibilidade não pode com a paixão.

A revelia da frase de Clarice, Nara foi chamada e encontrou sua própria maneira de ir, inóbvia, singular e genial. 

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