Já perdi as contas de quantas vezes fui atravessado
por essa sensação de déjà vu, termo em francês para o fenômeno do cérebro que
faz parecer que já vivenciamos determinada experiência e que, ao pé da letra
quer dizer ‘o já visto’.
Cenas banais do meu dia como pegar uma xícara e
levar o café até a boca, enquanto alguém diz uma frase e, num instante, é como
se tivesse me transportando no presente para um passado já vivido e quase posso
prever as palavras que me serão ditas. Filósofos leem esse fenômeno como a
velocidade do pensamento humano, cientistas como uma atitude involuntária do
cérebro, já os espíritas como um lampejo da confirmação da reencarnação. Eu,
ainda enfrento esses segundos, assustado.
Nesse fim de semana a sensação foi prazerosamente diferente.
Em mais uma navegação incauta nas ondas da internet meu barco aportou em um
videoclipe no youtube e desceu âncoras de modo tão definitivo que até agora não
consegui desgrudar meu dedo do play.
A melodia, uma brisa boa meio viciante que desagua
num vocalize que nunca mais vai sair da minha cabeça. A letra, simples, é
também apaixonante e lírica. A voz é inédita e familiar: “É a Baby?”, não, é
melhor. É Baby e Pepeu juntos num outro ser. É a eternização de um DNA que o
Brasil aprendeu a amar. É um pássaro? É o avião Zabelê, uma esperança concreta no
futuro da música brasileira que é, ao mesmo tempo, uma revisita aos pais, e a
superação do tempo. A alquimia de uma genética musical que é patrimônio desse
país.
Não se trata aqui do lugar comum, “filho de peixe”,
minha geração não viveu o ápice dos novos baianos in loco, mas a natureza nos
presenteou com o milagre do novo. Óbvio que posso pôr para tocar ‘Mistério do
Planeta’, ou ‘A menina dança’ a qualquer instante no meu rádio, mas estar
diante dessa genialidade traduzindo o meu tempo é tomar parte das minhas raízes
no hoje, é revigorante.
Esse encontro casual com ‘Nossas Noites’, clipe da
canção de trabalho do disco em que Zabelê debuta sua carreira solo, tocou meu
coração de uma maneira que só havia sentido em 2003 quando assisti a Maria Rita
nascer na nossa MPB. Era um déjà vu de Elis com o frescor do meu tempo no
agora. Ambas, um déjà vu inédito, já que não era nascido quando suas mães
destilavam a fina flor dos timbres e tons alimentando a memória coletiva da
nossa gente. Ganhei minhas próprias referências.
Temperando ainda mais minhas emoções, o clipe tem a
participação dançante do time que tocou e produziu o disco, além do Moreno
Veloso, isso mesmo, outro filho genial da nossa cultura, dançando uma espécie
de samba de roda contemporâneo, idêntico ao pai, quase sem tirar o pé do chão, e
fazendo um pas de deux com Zabelê. É
a metáfora da nossa história musical bailando diante da gente. O que seria
apenas Moreno e Zabelê trocando passos tímidos no teatro municipal de Niterói, é
na verdade o ‘Menino do Rio’ do meu tempo.
Zabelê, eu canto pra Deus proteger-te!
Senhoras e senhores, Zabelê com ‘Nossas Noites’: https://www.youtube.com/watch?v=5R3y2ZanRhg
Morrendo de vontade de ver, minha internet nao esta permitindo... arrasada!!!
ResponderExcluirUau! Show! Baby e Pepeu embalaram minha mocidade. Bom saber que um time de vida inteligente deu cria a um time de vida inteligente. O show não pode e nem deve parar!
ResponderExcluirIncrível!! Que Zabelê tenha tanto sucesso quanto seus pais!
ResponderExcluirNossa , estou muito feliz em ler isso ,pois sei que é tudo oque eu queria expressar, e tudo isso que li sobre Zabelê e esplêndido.
ResponderExcluirSuper feliz pela bela descrição... Parabéns Zabelê ...