Naquela tarde, a gravadora estava sediando a
correria habitual quando me anunciaram uma visita importante a qual precisava
receber: “Márcio, o Michael vem aí... você pode atender pra mim?”. Aceitei sem
me questionar muito de quem se tratava, posto o grande número de artistas e
empresários com os quais a minha rotina profissional propicia encontros, mas
esse, apesar de ainda não ter me dado conta, seria um dos mais especiais.
Quando entrei na sala de reuniões me deparei com um
rosto muito familiar, mas que ainda não me ligava à nome. “- Café, mate?”,
questionei mecânico. “- Café e sem açúcar”, me respondeu aquela voz quase mais
familiar que o rosto. Rouca e potente escondia um sotaque nordestino quase
cantado. “Você deve estar lembrado de mim, mas é que estou com cerca de 100 kg
a menos”, brincou. “Sou Michael Sullivan, trabalho com gospel, mas também venho
da música secular”, respondeu direto à minha expressão que já devia denunciar
meu questionamento. “Claro!”, exclamei incontido. Naquele instante me veio à
mente as centenas de canções que aquele homem, que estava diante de mim havia
composto:
De ‘My Life’ à ‘Wisky à GoGo’, de ‘Nem um toque’ à ‘Me
dê Motivo’, passando pelas infantis ‘Brincar de índio’, ‘É de Chocolate’ e ‘Arco-íris’...
Enfim, centenas de canções por trás de grandes vozes aclamadas pelo público e
pela crítica, incluindo a dele. Tratava-se de um gênio inconteste e ali, diante
de mim. “No que posso te ajudar?”, prossegui tentando disfarçar a admiração.
Seguimos trocando casualidades profissionais e depois da terceira palavra já
nos tínhamos tornado amigos de sempre e pra sempre.
No meio da conversa, soltei alguma metáfora impensada.
Ele pescou e rebateu: “- Você escreve, não é?”. “- Como?”, respondi perguntando
pra ele e pra mim... (Como dizer para o sábio de baixo da canção que imortalizou
o dueto do Tim Maia com a Gal que se tem alguns manuscritos escondidos e que,
há muitos anos, competi em festivais escolares cantando e defendendo meus
versos?) “- Você descreveu algum termo com a sensibilidade de um poeta, menino”,
seguiu me desafiando a sair da caixinha. “De certo modo...”, arrisquei. “Então
faz o seguinte, tome nota do meu endereço e na semana que vem acertamos uma ida
sua ao meu estúdio para eu ler o que você tem guardado, topa?”. Topei ainda sem
muita certeza se era apenas uma gentileza daquele grande artista disfarçada de
convite.
Às proximidades da hora no dia marcado, aquela
mesma voz me pega desprevenido pelo telefone. “Márcio, escuta, você janta ou
lancha à noite?”. Era ele, Michael Sullivan, reiterando um convite feito uma
semana antes com a certeza definitiva de um caçador de almas sedentas pela
arte. Ainda sem acreditar respondi qualquer coisa, juntei as minhas coisas e
corri, literalmente, para o endereço anotado à lápis num pedaço de papel sem
pauta.
Ao chegar à bela mansão por detrás de um grande
bosque na Barra da Tijuca, lá estavam ele e sua esposa. Com a nobreza de um rei
e o coração de um servo, me recebeu na casa e na vida deles pela porta da
frente. Cantamos e contamos coisas das nossas vidas e, num instante, já estávamos
sentados no estúdio que ele construiu para ser seu segundo lar dentro de seu
próprio.
“Menino, eu tenho aqui uma melodia. Ainda não tem
letra...” Enquanto ele terminava de desenhar as palavras da frase, meu corpo
todo já reagia a uma sensação nova... A certeza de que ali nasceria um momento
que daria um novo rumo à minha vida e à arte que eu produzia em secreto. Sem
responder nada peguei papel e caneta e o deixei tocar o violão. Uma, duas, pedi
a terceira e... Pronto. Tinha escrito algo. “Canta pra gente”, disse doce a
esposa dele que ainda conhecia pouco e que tinha um nome difícil de decorar. “Ahhh...
Deixa eu ir que o que tinha guardado no peito se perdeu...”, Comecei a cantar.
Quando terminei estávamos os três muito emocionados e ainda mudos. Não sabia se
tinha sido aprovado e o constrangimento se verteu em alegria quando os olhos de
Michael brilharam enquanto ele dizia: “Que coisa bonita, rapaz!” Nasceu nesse
primeiro encontro marcado ‘Dor em Arlequim’. Primogênita das dez canções que compusemos
em parceria de lá pra cá.
Como uma mistura de tutor poético e irmão mais
velho com solfejos de apadrinhamento, Michael Sullivan seguiu crescendo mais a
cada dia em meu conceito. O que faz um homem consagrado pela mídia descer do
seu trono e cavar um espaço no peito de um desconhecido com a humildade de um
anônimo? Só a verdadeira nobreza é tão discreta, quando o Midas da canção te dá
guarida na sua garupa e te surpreende com oportunidades incontáveis de crescer
com a sua arte e ser alguém melhor.
Descobri que o homem, por trás da personagem de
nome gringo, é um nordestino cheio de histórias reais nos bolsos da alma pra
cantar para o nosso coração. É um jovem sonhador que passou fome de pão,
enquanto saciava sua sede de música, acreditando que as coisas podem melhorar
pra quem tem Deus no peito. Conheci, não apenas o Sullivan (sobrenome eleito
numa lista telefônica em Nova Iorque pra protagonizar as trilhas internacionais
das novelas da Globo), mas o Ivanilton Lima. Ser simples de generosidade
transbordante que viveu o melhor e o pior da fama sem conhecer a cara do
rancor.
Como a fada boa dos contos, Sullivan tem alimentado
a minha escrita poética e encorajado a minha assinatura ao lado da dele em
canções das quais me orgulho sem envaidecimento, porque é dele que sempre parte
a consciência do suor por trás de um refrão bem escrito.
Michael Sullivan, ou Ivanilton Lima, tanto faz... é
desses monstros sagrados que gastam mais tempo em suas oficinas de genialidade
do que diante do espelho. É, pra mim, um símbolo na música e uma referência
sincera na vida. Trata-se de um camarada que sabe de cor o número de degraus que
lhe levou ao topo, para que não se iluda com a beleza da vista.
Ele, nessa semana, completa mais um ano de vida na
vida da gente e o BlogQuaseCult pede ao ‘Cara lá de cima’ mais saúde e paz,
para que possamos desfrutar da saborosa companhia deste homem de luz...
Brilha pra nós, Michael Sullivan! Brilha pra gente,
meu amigo!

Pra qm nasceu no meio dos anos 80, esse nome nao so nos é familiar como traz junto um caminhao de sentimentos e emoçoes... mamae conta q todas as vezes q ouvia "é de chocolate" chorava uma emoçao q nao sabia de onde vinha, na altura dos meus 6 ou 7 anos ele ja me emocionava.... que emoçao poder conviver com esse cara que escreveu a trilha sonora das nossas vidas e que trouxe mais emoçao pra nossa historia!!! Obrigada Sullivan e Parabens pelo seu dia
ResponderExcluirObrigada mano por dividir mais essa com a gente
Beijo