segunda-feira, 7 de março de 2016

Ivanilton Lima



Naquela tarde, a gravadora estava sediando a correria habitual quando me anunciaram uma visita importante a qual precisava receber: “Márcio, o Michael vem aí... você pode atender pra mim?”. Aceitei sem me questionar muito de quem se tratava, posto o grande número de artistas e empresários com os quais a minha rotina profissional propicia encontros, mas esse, apesar de ainda não ter me dado conta, seria um dos mais especiais.

Quando entrei na sala de reuniões me deparei com um rosto muito familiar, mas que ainda não me ligava à nome. “- Café, mate?”, questionei mecânico. “- Café e sem açúcar”, me respondeu aquela voz quase mais familiar que o rosto. Rouca e potente escondia um sotaque nordestino quase cantado. “Você deve estar lembrado de mim, mas é que estou com cerca de 100 kg a menos”, brincou. “Sou Michael Sullivan, trabalho com gospel, mas também venho da música secular”, respondeu direto à minha expressão que já devia denunciar meu questionamento. “Claro!”, exclamei incontido. Naquele instante me veio à mente as centenas de canções que aquele homem, que estava diante de mim havia composto:

De ‘My Life’ à ‘Wisky à GoGo’, de ‘Nem um toque’ à ‘Me dê Motivo’, passando pelas infantis ‘Brincar de índio’, ‘É de Chocolate’ e ‘Arco-íris’... Enfim, centenas de canções por trás de grandes vozes aclamadas pelo público e pela crítica, incluindo a dele. Tratava-se de um gênio inconteste e ali, diante de mim. “No que posso te ajudar?”, prossegui tentando disfarçar a admiração. Seguimos trocando casualidades profissionais e depois da terceira palavra já nos tínhamos tornado amigos de sempre e pra sempre.

No meio da conversa, soltei alguma metáfora impensada. Ele pescou e rebateu: “- Você escreve, não é?”. “- Como?”, respondi perguntando pra ele e pra mim... (Como dizer para o sábio de baixo da canção que imortalizou o dueto do Tim Maia com a Gal que se tem alguns manuscritos escondidos e que, há muitos anos, competi em festivais escolares cantando e defendendo meus versos?) “- Você descreveu algum termo com a sensibilidade de um poeta, menino”, seguiu me desafiando a sair da caixinha. “De certo modo...”, arrisquei. “Então faz o seguinte, tome nota do meu endereço e na semana que vem acertamos uma ida sua ao meu estúdio para eu ler o que você tem guardado, topa?”. Topei ainda sem muita certeza se era apenas uma gentileza daquele grande artista disfarçada de convite.

Às proximidades da hora no dia marcado, aquela mesma voz me pega desprevenido pelo telefone. “Márcio, escuta, você janta ou lancha à noite?”. Era ele, Michael Sullivan, reiterando um convite feito uma semana antes com a certeza definitiva de um caçador de almas sedentas pela arte. Ainda sem acreditar respondi qualquer coisa, juntei as minhas coisas e corri, literalmente, para o endereço anotado à lápis num pedaço de papel sem pauta.

Ao chegar à bela mansão por detrás de um grande bosque na Barra da Tijuca, lá estavam ele e sua esposa. Com a nobreza de um rei e o coração de um servo, me recebeu na casa e na vida deles pela porta da frente. Cantamos e contamos coisas das nossas vidas e, num instante, já estávamos sentados no estúdio que ele construiu para ser seu segundo lar dentro de seu próprio.

“Menino, eu tenho aqui uma melodia. Ainda não tem letra...” Enquanto ele terminava de desenhar as palavras da frase, meu corpo todo já reagia a uma sensação nova... A certeza de que ali nasceria um momento que daria um novo rumo à minha vida e à arte que eu produzia em secreto. Sem responder nada peguei papel e caneta e o deixei tocar o violão. Uma, duas, pedi a terceira e... Pronto. Tinha escrito algo. “Canta pra gente”, disse doce a esposa dele que ainda conhecia pouco e que tinha um nome difícil de decorar. “Ahhh... Deixa eu ir que o que tinha guardado no peito se perdeu...”, Comecei a cantar. Quando terminei estávamos os três muito emocionados e ainda mudos. Não sabia se tinha sido aprovado e o constrangimento se verteu em alegria quando os olhos de Michael brilharam enquanto ele dizia: “Que coisa bonita, rapaz!” Nasceu nesse primeiro encontro marcado ‘Dor em Arlequim’. Primogênita das dez canções que compusemos em parceria de lá pra cá.

Como uma mistura de tutor poético e irmão mais velho com solfejos de apadrinhamento, Michael Sullivan seguiu crescendo mais a cada dia em meu conceito. O que faz um homem consagrado pela mídia descer do seu trono e cavar um espaço no peito de um desconhecido com a humildade de um anônimo? Só a verdadeira nobreza é tão discreta, quando o Midas da canção te dá guarida na sua garupa e te surpreende com oportunidades incontáveis de crescer com a sua arte e ser alguém melhor.

Descobri que o homem, por trás da personagem de nome gringo, é um nordestino cheio de histórias reais nos bolsos da alma pra cantar para o nosso coração. É um jovem sonhador que passou fome de pão, enquanto saciava sua sede de música, acreditando que as coisas podem melhorar pra quem tem Deus no peito. Conheci, não apenas o Sullivan (sobrenome eleito numa lista telefônica em Nova Iorque pra protagonizar as trilhas internacionais das novelas da Globo), mas o Ivanilton Lima. Ser simples de generosidade transbordante que viveu o melhor e o pior da fama sem conhecer a cara do rancor.

Como a fada boa dos contos, Sullivan tem alimentado a minha escrita poética e encorajado a minha assinatura ao lado da dele em canções das quais me orgulho sem envaidecimento, porque é dele que sempre parte a consciência do suor por trás de um refrão bem escrito.

Michael Sullivan, ou Ivanilton Lima, tanto faz... é desses monstros sagrados que gastam mais tempo em suas oficinas de genialidade do que diante do espelho. É, pra mim, um símbolo na música e uma referência sincera na vida. Trata-se de um camarada que sabe de cor o número de degraus que lhe levou ao topo, para que não se iluda com a beleza da vista.

Ele, nessa semana, completa mais um ano de vida na vida da gente e o BlogQuaseCult pede ao ‘Cara lá de cima’ mais saúde e paz, para que possamos desfrutar da saborosa companhia deste homem de luz...


Brilha pra nós, Michael Sullivan! Brilha pra gente, meu amigo!

Um comentário:

  1. Pra qm nasceu no meio dos anos 80, esse nome nao so nos é familiar como traz junto um caminhao de sentimentos e emoçoes... mamae conta q todas as vezes q ouvia "é de chocolate" chorava uma emoçao q nao sabia de onde vinha, na altura dos meus 6 ou 7 anos ele ja me emocionava.... que emoçao poder conviver com esse cara que escreveu a trilha sonora das nossas vidas e que trouxe mais emoçao pra nossa historia!!! Obrigada Sullivan e Parabens pelo seu dia
    Obrigada mano por dividir mais essa com a gente
    Beijo

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