segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Violão e voz




Nara Leão, João Gilberto, Caetano, Gil, Bethânia... Ninguém fugiu do barzinho. Do sul portoalegrense dos irmãos Kleiton e Kledir ao nordeste forrozeiro de Elba e Zé, ninguém passou ileso pela dor e a delícia de um violão e voz na boemia alheia e, finalmente posso dizer que, nem eu.

Desde menino, quando o pai emendava as festas da casa de praia no ‘Violão do Porto’, pra ouvir a versão mosqueirense do Chico Buarque, já ficava atento. “Como aquele cara decora todas aquelas canções? Como toca ritmado acordes dissonantes?”, me questionava sincero e cheio de vontade de fazer igual.

Depois dos 15, já mais moço, a mãe enchia a casa de cantores da cidade, lhes dando guarida e o nosso carinho, as Giseles (Gris e Furtado) foram as que, com certeza, me marcaram definitivo. Compus algumas canções inesquecíveis com as duas e foi segurando as mãos delas que dei minhas primeiras canjas na noite paraense.

De lá pra cá, misturei minha voz com a do mestre Renato Torres em parcerias nossas e em noites memoráveis no ‘Babitonga’, com a dadivosa Verena Torres. Um sem-número de vozes com mil e uma histórias para contar e cantar. Aquilo sempre, de alguma forma falou alto dentro de mim também.

Pois bem, chegou a minha vez. Não posso cometer o pecado de não mencionar que o casal Sullivan, que são as mãos nas minhas costas à me empurrar pra frente na música e na poesia, que me emprestaram toda a parafernália necessária para se fazer um som com o mínimo de qualidade.

Movido por uma paixão antiga e encorajado pela mulher da minha vida, que costuma dar asas aos meus sonhos malucos, me ofereci pra cantar em um restaurante na Ilha (do Governador) e acabo de voltar de lá com a sensação ainda viva e pulsante no peito.

Engraçado os malabarismos necessários para roubar a atenção dos clientes que chegaram ao local com a única necessidade de saciar a fome. Como ser mais interessante cantando do que um prato bem servido na hora do meu refrão? Ali, no banquinho, ao lado do meu fiel escudeiro Felipe Guedes, com o violão em riste, desafiava um falsete blues em ‘Oceano’, depois um vocalize lúdico em ‘Codinome Beija-flor’ até, acho que acertar a mão e trazer eles de volta pra mim.

Mal puxava o Cartola numa interpretação emocionante, ensaiada com poemas no solo e tudo, e o garçom já puxava meu tapete voltando pra avisar à família atenta que o guaraná acabara. O que fazer? ‘Todo artista tem que ir aonde o povo está’, como sabiamente previa Bituca. Eu aceitava o desafio.

Foram três horas lutando entre prato principal e sobremesa até que, na hora do cafezinho o restaurante veio comigo em coro “Eu quero é viver em paz, por favor me beije a boca, que louca, que louca...” Senti ali que a guerra tinha valido a pena.


Pensei no Djavan, tentando um lugar ao sol fazendo piano bar na zona sul, no Chico, ao lado do Toquinho, cantando cem vezes ‘A Banda’, num castelo na Itália no aniversario de uma duquesa cheia de convidados blasé. Pensei em mim ali, desarmado, mas ardendo à minha própria paixão, sem saber se estava pisando em falso na corda bamba da minha própria vida, onde pode acontecer tudo, inclusive nada... Domingo que vem parece que tem mais.

2 comentários:

  1. Marcinho,

    o barzinho é o tubo de ensaio da maioria dos artistas que a gente ama... e é muito importante viver essa fase da música! na verdade, uma fase pra qual a gente sempre tem vontade de voltar (vide Cássia Eller, fazendo shows - quase - anônimos em pequenos barzinhos do interior, por dez reais de couvert, mesmo depois - e por causa - da fama avassaladora)! manda brasa!

    beijos,

    r

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  2. Adorooooo, sempre gostei, fui a primeira fa, eu acho, das cançoes no banheiro as 6h da manha, quando todos corriam se arrumando pra escola, ate os festivais e canjas inesqueciveis nas nossas noites de boemia da epoca da faculdade... continue cantando e nos encantando!!! Muitos beijos

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