segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

É Carnaval!



Se o Brasil é o País do carnaval, o Rio é o berço esplendido da festa de momo. Uma espécie de porto onde todas as opções ‘foliônicas’ atracam seus navios de diversão e colorem a cidade de todas as cores da bandeira da alegria, certo? Nem pra todos!

Prometo não jogar água no chopp do folião entusiasmado com a serpentina, mas é impossível passar ileso ao impacto que o cotidiano sofre com essa invasão da ‘felicidade alheia’. Que, aliás, vitimou dezenas de pombos no ensaio do Salgueiro na última semana. À troco de quê?

Levei tempo para me acostumar com essa rotina carioca de fugir da cidade no mês de fevereiro. Achava uma atitude blasê da burguesia cult que, tão logo tinham oportunidade, fugia para a Serra. Hoje, três anos instalado sob a sombra do Cristo, compreendo que esse “salve-se quem puder” é a tradução direta de um sintoma que agita a cultura brasileira desde os tempos de Cabral.

É só a mulata começar a sambar seminua em horário nobre que os blocos ganham as ruas em marchinhas infernais que, ora bloqueiam vias importantes e ora presenteiam as calçadas com os mais diversos odores oriundos dos fluidos corporais de gringos incautos e turistas nacionais em êxtase: “Pode tudo, afinal é carnaval”.

A prefeitura ganha com turismo espontâneo e licitações de banheiros químicos, quase nunca utilizados, as agremiações se legitimam colocando suas escolas na avenida com as protagonistas, ‘das oito’, rebolando até o chão e bradando o samba-enredo num delay infinito e a população, que não tem samba no pé, que se dane para encontrar percursos alternativos para chegar ao trabalho até antes do feriado. Sim, porque a festa tem Esquenta na TV e na vida e só acaba muito depois de quarta-feira nas ressacas de pós-carnaval.

Perceba, caro leitor, que a minha insatisfação não é com a festa em si. Acho bonita essa capacidade tão brasileira de vestir a fantasia do ‘apesar de...’ e sair às ruas decidido à ser feliz, mas acho importante salientar que a mesma população que junta cada centavo para costurar um adereço exuberante nas ruas, sofre as barbáries do desmando de uma política excludente e coronelista.

Somos o país do analfabetismo, do crime organizado e recordista nos quesitos de prostituição infantil e moradia de rua. O Rio, que cedia as Olimpíadas e é a passarela de um dos mais tradicionais carnavais brasileiros vive sob o comando de um poder paralelo sustentado pelo narcotráfico e todo mundo sabe. E daí?

E daí que esse é o período de grandes decisões no congresso, que são aprovadas debaixo do nosso nariz de palhaço. Nos municípios a maioria dos orçamentos do ano são defendidas e definidas enquanto a gente canta ‘Alalaô’.

Enfim, sou 100% brasileiro e a nossa cultura ganha notoriedade nesse período, admito, pelo menos nos Estados que, de alguma maneira, enriquecem nesse feriado, visto que cidades como Belém, por exemplo, usam a avenida para desfilar mais uma resistência cultural do que uma beleza artística factível. E é belo ver como a massa é poderosa ao entoar seus cantos que gritam por mais respeito à arte de um povo, do que para comemorar o que quer que seja.


Quanto à mim, vou para a serra!

3 comentários:

  1. Infelizmente é essa mesma a realidade do Carnaval... um grito de quero ser feliz no meio do sufoco em que vivemos!!!!

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  2. Belo BLOG.... BOAS MATERIAS....abração

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