Se o Brasil é o País do carnaval, o Rio é o berço esplendido
da festa de momo. Uma espécie de porto onde todas as opções ‘foliônicas’
atracam seus navios de diversão e colorem a cidade de todas as cores da
bandeira da alegria, certo? Nem pra todos!
Prometo não jogar água no chopp
do folião entusiasmado com a serpentina, mas é impossível passar ileso ao
impacto que o cotidiano sofre com essa invasão da ‘felicidade alheia’. Que, aliás,
vitimou dezenas de pombos no ensaio do Salgueiro na última semana. À troco de
quê?
Levei tempo para me acostumar com
essa rotina carioca de fugir da cidade no mês de fevereiro. Achava uma atitude
blasê da burguesia cult que, tão logo tinham oportunidade, fugia para a Serra.
Hoje, três anos instalado sob a sombra do Cristo, compreendo que esse “salve-se
quem puder” é a tradução direta de um sintoma que agita a cultura brasileira
desde os tempos de Cabral.
É só a mulata começar a sambar
seminua em horário nobre que os blocos ganham as ruas em marchinhas infernais
que, ora bloqueiam vias importantes e ora presenteiam as calçadas com os mais
diversos odores oriundos dos fluidos corporais de gringos incautos e turistas
nacionais em êxtase: “Pode tudo, afinal é carnaval”.
A prefeitura ganha com turismo espontâneo
e licitações de banheiros químicos, quase nunca utilizados, as agremiações se
legitimam colocando suas escolas na avenida com as protagonistas, ‘das oito’,
rebolando até o chão e bradando o samba-enredo num delay infinito e a população,
que não tem samba no pé, que se dane para encontrar percursos alternativos para
chegar ao trabalho até antes do feriado. Sim, porque a festa tem Esquenta na TV
e na vida e só acaba muito depois de quarta-feira nas ressacas de pós-carnaval.
Perceba, caro leitor, que a minha
insatisfação não é com a festa em si. Acho bonita essa capacidade tão
brasileira de vestir a fantasia do ‘apesar de...’ e sair às ruas decidido à ser
feliz, mas acho importante salientar que a mesma população que junta cada
centavo para costurar um adereço exuberante nas ruas, sofre as barbáries do
desmando de uma política excludente e coronelista.
Somos o país do analfabetismo, do
crime organizado e recordista nos quesitos de prostituição infantil e moradia
de rua. O Rio, que cedia as Olimpíadas e é a passarela de um dos mais
tradicionais carnavais brasileiros vive sob o comando de um poder paralelo
sustentado pelo narcotráfico e todo mundo sabe. E daí?
E daí que esse é o período de
grandes decisões no congresso, que são aprovadas debaixo do nosso nariz de
palhaço. Nos municípios a maioria dos orçamentos do ano são defendidas e
definidas enquanto a gente canta ‘Alalaô’.
Enfim, sou 100% brasileiro e a
nossa cultura ganha notoriedade nesse período, admito, pelo menos nos Estados
que, de alguma maneira, enriquecem nesse feriado, visto que cidades como Belém,
por exemplo, usam a avenida para desfilar mais uma resistência cultural do que
uma beleza artística factível. E é belo ver como a massa é poderosa ao entoar
seus cantos que gritam por mais respeito à arte de um povo, do que para
comemorar o que quer que seja.
Quanto à mim, vou para a serra!

Infelizmente é essa mesma a realidade do Carnaval... um grito de quero ser feliz no meio do sufoco em que vivemos!!!!
ResponderExcluirBelo BLOG.... BOAS MATERIAS....abração
ResponderExcluirTriste realidade...
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