À Glaucio, Flávia, Renato e Junior
Em Belém, existia um Colégio chamado Moderno e que
levava muito a sério esse nome. Foi um dos primeiros a se tornar misto no
Brasil, aceitando matrículas tanto de homens quanto de mulheres e aos poucos
virou referência em educação e um dos mais definitivos incentivadores da
cultura e do esporte, ao formar times importantes nas mais diversas modalidades
e elencos de teatro e dança respeitados, sem falar nos músicos de bagagem que
passaram a ser conhecidos no Brasil e no mundo como Pedrinho Cavalléro, Leila
Pinheiro e tantos outros.
Eu tive a sorte de estudar lá ao longo de toda a minha vida escolar, do
maternal ao convênio (como é chamado o terceiro ano do ensino médio na cidade).
Nessa época, a gestora-mor da escola era a professora Marlene Vianna. Uma
visionária com olhar sensível ao ser humano, daquelas de provocar suspiros até
no Frei Beto.
Foi sob a batuta dela que, na minha juventude, foi fundado o Núcleo de
Artes e Esportes do Moderno, coordenado por um professor controverso pela
rigidez, mas cheio de inspiração que era capaz de ensinar a vida enquanto se
dividia entre as funções de educador físico e mentor intelectual do núcleo, o
nome dele é Gláucio Sapucahy.
Além das equipes de esportes, era responsabilidade dele supervisionar os
grupos de Dança, liderado pela intelectual e revolucionária pesquisadora do
movimento Ana Flávia Mendes, com quem Gláucio veio a casar, teatro e música,
regidos pelos poetas inspiradores Dionelpho Jr e Renato Torres.
O desafio do núcleo era manter uma rotina cultural na escola onde os
alunos teriam contatos semanais com as diversas linguagens artísticas e
espetáculos de dança e teatro anuais que protagonizariam pautas nas principais
casas de eventos da capital paraense com requinte profissional. Além disso,
seria necessário para o núcleo, manter a tradição de festivais que estimulariam
a produção musical e poética dos estudantes da minha geração.
Isso tudo além de ensinar o trivial, português, geografia, matemática...
Parece um sonho né? Mas era realidade. Vivi um apogeu educacional onde nos era
lícito compor e cantar nos intervalos musicais do recreio, dançar e interpretar
nas feiras culturais com a liberdade de um artista de verdade.
Foi nesse contexto de festivais de música e poesia que aos poucos
grandes personalidades artísticas foram sendo lapidadas.
O primeiro que participei foi em 2001. Tinha acabado de ingressar no
grupo de teatro e me unido muito aos atores do elenco. Passamos a fazer tudo
juntos. Assistíamos aulas uns nas salas dos outros, emendávamos os ensaios da
peça com reuniões nas casas da turma e fomos absolutamente estimulamos por
Dionelpho e Renato a mudar a nossa ótica habitual pela poesia.
Ali passamos a ser capazes de lançar mão de metáforas e abstrações cada
vez mais precisas, até que criamos uma espécie de sociedade de poetas vivos,
que costumeiramente se reunia no bosque da cidade para declamar, cantar e
compor, ao qual batizamos Labidad (uma abreviação de bom gosto do termo
Labirinto Dadivoso) que designava aquilo que apesar de complexo, nos preenche
de prazer.
O resultado de um dos primeiros encontros do Labidad foi a composição da
canção "Ver de começo", escrita pelas, então, atrizes Daiane
Gasparetto, Márcia Dantas e por mim. A música se tornou uma espécie de hino
premonitório de três crianças audaciosas, mas muito conscientes de que o que
estava nascendo ali não era apenas um grupo de teatro de escola, mas um
movimento cultural avassalador e definitivo, bom, pelo menos pra nós.
Ver de Começo
No meio desse tudo, sinto ser o que se sente
Poetas à procura de inspiração e semente de folha seca
E desejo que permita que para sempre continue
A virgindade poética de sermos tão especiais, quanto geniais e sempre
Mesmo que ultrapassados contemporâneos amantes da poesia
Da poesia
Diante dos que passam lúcidos somos à procura
Do qual estreante ritual
Ver de começo
Começo a ver, começo a ver o ver de começo
Ver de começo
Começo a ver, começo a ver o ver de começo
Fora o início
Fora a junção
Que por membranas na cabana
Que pedem pra que possam seguir
Onde cada coisa tem forma
Poetas a procura de folha seca
E desejo que permita
A virgindade poética de sermos
Quem quer verdecer? Eu quero ver!
Quem quer verdecer? Eu quero ver!
Ver de começo
Começo a ver, começo a ver o ver de começo
O fato é que inscrevemos a canção no festival de música do Colégio, o
Fest Moderno, daquele ano. Na noite de apresentação, surgimos com figurinos
coloridos, atitude cênica e divisões vocais bem elaboradas. Estávamos
inventando o nosso tropicalismo com ares de doces bárbaros sem saber. Não
ganhamos o festival, mas sabíamos que alguma coisa diferente acabava de nascer.
Nos anos seguintes em interpretações conjuntas ou solo nossas vidas
passaram a contar com esse evento anual que mexia incrivelmente com a nossa
criatividade e gerava certa competitividade poética saudável.
No meio dos baladas de amor adolescente em forma de rock ou pop, que
eram característicos de festivais escolares de música, inscrevíamos baiões e
xaxados, saboreando uma brasilidade ufanista com letras cada vez mais
experimentais e recheadas de performances ousadas.
Depois de faturarmos o sétimo lugar daquele ano, nos separamos e
preparamos canções solo ou com novos parceiros. Aos poucos esse movimento que
nasceu no Núcleo de Artes ia ganhando adeptos. Vitor Nina, que estudava na
minha sala entrava para o elenco na curva final da temporada de nosso
espetáculo teatral e logo passou a integrar o Labidad com versos byronianos e
um violão recém-aprendido que conduzia muitas das nossas reuniões.
Junto com ele escrevi diversas parcerias e uma delas faturou o prêmio de
terceiro lugar do ano seguinte no Fest. Um baião moderno com letra nonsense
chamado “O Barranco e o Zé pelling”. Os versos eram tão confusos que na
eliminatória esqueci a segunda estrofe inteira e, por mais que os colegas e
concorrentes gritassem solidariamente os versos da coxia, tive que improvisar
uns vocalizes ‘edmottianos’ e convenci os jurados que me aprovaram para a final
na noite seguinte.
O Barranco e o Zé Pelling
Passei por cima do barranco e
do meu terno branco só sobrou Zé pelling
Recauchutado, amarrado zabumba do viado
dando em cima de mim
Pro resto do cristal que vi na lata do lixo,
pisado que nem chiclete,
cuspido feito cupido peste
Passei por cima do espaço
no meio do compasso foi que me confundi
Mistura doida de fermento e aço
nagô e pedaço Zabumba e zé pelling
Na costa do vitral que vi
Recauchutado na beata que se descola em mulata
quando ouve um tamborim
O tamborim quem toca é nego com fome,
Vira lobisomem ou se desfaz assim
Mistura doida de asfalto e gente
onde a outra dorme e toma o teu lugar
Cachaça ou onda de bebida quente,
veneno de serpente pra te apunhalar
Mistura doida de fermento e aço
nagô e pedaço Zabumba e zé pelling
Zabumba e zé pelling ôh um ôh Um ôh!!!
No mesmo ano aproveitei a oportunidade de duas canções por participante
e inscrevi a balada “Pedra em Flor”. Num romântico pop, meio Frejat, a canção
destoava um pouco da linha que o Labidad vinha produzindo e fui acusado de ter
cedido ao mercado, aos 15 anos... Uma profanação deliciosa da nossa construção
poética. Faturou o segundo lugar, perdendo para a belíssima “Fim de dezembro”,
da Daiane, que trouxe a poética da pequena notável mais para o chão, tornando-a
mais acessível ao público.
Pedra em Flor
Então eu posso ver
A pedra se difundir em flor
Do gozo de quem nunca amou.
Quero conhecer, o medo de um amor
Fugacidade no elevador
Mas o 13 não chega nunca,
a firmeza do bem estar
Por que é que saiste de mim?
Só pra eu nunca me encontrar eu vou,
eu vou até o fim
Eu vou até o fim do mundo pra te buscar
Vou refletir a lua no mar
O mar na lua
Você nua e eu no altar só pra ver
A pedra se difundir em flor
Do gozo de quem nunca amou
A pedra se difundir em flor
Do gozo de quem nunca amou Nem a si
Fim de Dezembro
Ao entrar em fresta de janela
Cheiro de canela, soa assim assim
Sendo o fim de dezembro,
Amor ainda lembro do ano de jasmim
Flores, desastres clamores
Toca fita fica sendo assim
Por isso eu canto
Pra afinar meu sentimento
No meu quarto sinfonia melodia brisa da manhã
Cheiro que erradia
Brasa que tardia
A noite chega fria
despedida de coração
Um ano depois, descobrimos todos juntos o clube da esquina e o mentor
Renato Torres, trouxe para a roda o livro ‘Os Sonhos não envelhecem’, do Márcio
Borges. Nina empregou sua verve poética na composição de uma valsa emocionante,
que ganhou ainda mais densidade na interpretação da veterana do festival Verena
Torres, que gozava de seu último ano no Moderno e já tinha arrebatado vários
prêmios do Fest em edições anteriores com o seu grave marcante e sua timidez
romântica.
Segunda Voz
Calma, é só tua alma
É a minha saia, é o que te envolve
É o que eu cego, é o que tu sorves
É a minha sede de me molhar.
Calma é a tua espada é a minha lira
A minha ira
É a minha febre, é o que eu não nego
É o que te fecha
O que me enfesta
O sol e o medo
É o que te espera
Calma, tu és a noite
Eu sou o dia
Eu sou a noite
Tu és o dia
Eu sou o meio
Calma, eu sou tua casa
Eu sou o teu seio
Sou o que vejo
Calma, que eu sei teu nome
O que ninguém sabe
Sei por inteiro
Caiba, que tudo cabe
Da tua roupa ao
meu primeiro medo
Nessa edição eu tinha inscrito um maracatu groovado, super influenciado
pelo Lenine, que eu acabava de descobrir em um show do Sesc que marcou a
cidade, ao lado de Paulinho Moska e Nilson Chaves numa fita cassete que a
Daiane tinha gravado da transmissão da Rádio Cultura. Minha canção se chamava
‘Vá idade’ e já narrava essa experiência da adolescência.
Vá idade
Tão logo venha minha novidade
Minha Nova idade, meu ancestral
Pra pouca idade digo mocidade
Para seu excesso Morte Funeral
Arbítrio de ter estampado na cara o tempo que passou
Vontade de ter a metade da idade vaidade de ser quem sou
Pelos pêlos e suas cores vejo amores que não vivi
E pelas rugas ressaltam as dores tragédias e flores que já sofri
Quando tão velho, me sinto óbvio
Quando tão óbvio, claro demais
Quanto mais claro, mais novo
Na idade o tempo jaz
Lá fora a paisagem corre tão devagar,
que nem dá pra ver, que nem dá pra ver
Posto que é vida qualquer caminhar,
Estou de frente pra idade que vou ter
E ela parece cansada demais
Adormece antes da prece.
Contra meu maracatu, Daiane inscreveu ‘Cinzeiro’, uma experimentação ainda
mais aguçada com a palavra que arrancou aplausos efusivos ao fim de sua
interpretação inusitada. Ela tinha a doçura da Nara Leão e a loucura de Tom Zé,
numa mistura apaixonante.
Cinzeiro
Pé de barro que seca a seco
Pisa no alto do relevo
Pede a seca do sol
Onde já há
Solos molhados de espera
Onde há aterro atado às artérias
Onde há canteiro cantado no que era
Cinzeiro da certeza à espera
Na planta do nascer do sol
Sina de quem já consumiu
Sete relógios e não dormiu
Some no vácuo junto a quem pede queimado de anzol
Contando os poros na derme já preta
Furando os tombos por cair em cercas
Furtando os homens pintados na mesa
Que sangram a sorte no punhal
Márcia Dantas defendeu suas duas composições com a sensualidade precoce
de uma musa, trouxe emoção a melodia madura que ela propunha. Outra que
integrou o time foi a Paloma Amorim, filha da fina flor do teatro paraense,
trouxe o teatro para dentro do festival de música com a baladinha “Menina da
contra mão”, que era um tanto quanto autobiográfica e agente adorava.
No meu último ano de Moderno, Daiane e eu escrevemos ‘Armação’ e
defendemos juntos. Foi sincero, emocionante e absolutamente lírico. Pena que os
jurados não acharam o mesmo e nos deram uma pontuação baixa que nos passou
arrastado para a final, mas nos colocou na sexta posição aquele ano.
Armação
Fui me arrumando
pra beber água e não bebi
Fui arrumando uma desculpa pra não te ver
E não te vi
Fiquei desarrumado ao saber que você se arrumou por lá
E há rumores de que os amores de lá são arrumados
Arrumam a língua apertada pra falar qualquer palavra
E caem na desarrumação, armação
Armação que mata a sede, quebra pote e invade,
E mata minha ânsia mareada,
Invada o rumo pra que encontre o ar
Armar, arrumar ar
A verdade é que as colocações e as notas nunca foram o motivo principal
da nossa produção poética. A maravilha dos ensaios com a banda base, a rotina
lírica dos conselhos e abraços, a amizade definitiva e a sensibilidade aguçada
pelos nossos mestres era a verdadeira causa de toda a nossa dedicação que se
legitimava no contato com a plateia na hora do nosso show.
Logo após termos concluído o ensino médio, foi autorizada a inscrição de
antigos alunos, assim, Daiane se uniu à outros três bailarinos da Cia Moderno
de Dança, que já participaram de maneiras diretas ou indiretas do festival de
música Cristian Perrotta, que mais tarde veio a desenvolver suas habilidades
musicais com formação, Ercy Souza, que segue escrevendo poesia e Feliciano
Marques, com quem dividi lado à lado boa parte da minha formação artística e
educacional numa amizade definitiva. O conjunto batizado de ‘Caixa à 4’ tinha
uma performance percussiva contagiante, onde uma grande caixa era ao mesmo
tempo palco de sapateado e atabaque baiano, sob o comando da poesia visceral da
vocalista. A canção defendida foi ‘Antinome’.
Antinome
A entrada do anticorpo
Na ante-sala
Um desgosto
Puro descendo sangue
Inflamando artéria, arterite
Ele não era ela, ele era it
Antenome pessoal
Sexo indefinido
Um estrangeiro rompendo
O sangue venenoso
Água, memória filética
Universo e sal
Medula embalsamada
Na espinha de peixe, um mal
Criado na comoção do gosto
O rosto composto grita
Vivemos a era dos festivais em pleno século 21. Forjamos figurinos, interpretações
e muitos versos nos redescobrindo artistas e amantes da poesia. O que o ‘Ver de
começo’ preconizava de fato se deu, o colégio Moderno cumpriu sua função nas
nossas vidas.
Hoje somos psicólogos, médicos, jornalistas, atores e atrizes, músicos
e, sobretudo, poetas. Somos uma geração de modernistas que pôde usufruir o
melhor da arte em horários letivos sem culpa e sem vergonha. Tivemos a sorte do
destino ao nosso lado. Sem falar no maravilhoso mundo do movimento que a
Companhia Moderno de Dança abriu com suas pesquisas profundas e audaciosas, mas
isso já é uma outra história...
Infelizmente, notícia vinda da estrada, os líderes da escola tiveram que
entregar suas gestões e esse templo encantado da cultura cedeu ao capital.
Parece que o núcleo de artes hoje dá espaço à mais salas de aula preparatórias
de pré-vestibular e nunca mais nenhum aluno foi instruído a cantar, dançar ou
compor em seus corredores.
Mas a boa notícia é que o Labidad segue imortal dentro de quem viveu e
viu uma fase onde alunos eram pessoas encantadas pelo ensino livre de
professores que ardiam à própria paixão de ensinar.

Márcio,
ResponderExcluirdeliciosa a leitura dessas memórias preciosas! de fato, quem viveu essa época foi marcado indelevelmente por ela, jamais esquecerá, mesmo que não saiba como por em palavras, como o sabes tão bem! feliz de ter contribuído/testemunhado/vivido essa época com vocês!
beijos,
r
Tua mão à nos guiar nunca terá preço, Mestre! Evoé!
ExcluirTempo magico que vivi olhando de longe e senti pelos coraçoes de todos esses queridos citados!!! Saudade desse tempo.... nossa... quanta saudade
ResponderExcluirManinha Amada, Teu olhar sempre atento desde esse tempo e até hoje... Te amo!
ExcluirPara um texto um texto
ResponderExcluirPara um amigo um amigo
A cada verso um retrô egresso...
Pelas sonoridades vão as viagens
Imagens
Pelas palavras recíprocas
Saudosas e nostálgicas
Me vejo e me indago
Pelos desencontros dos óbvios
Que nos uniu e separou
Sem parar
Mais que DIcotômico
São nossas palavras
Diria
Ciacotômica
Labidadcotômica
Ver de começotômica
Marcicotômico
Ercycotômico
Amigotômico
...
Ser estas palavras lidas em seu texto
Me faz você ser eu em ti
Grato modernistamente e
Pretericamente falando
Sendo
audacioso como lá
curioso como lá
Pulsante como lá
Mas também cá em tempo
Mas também cá e aí
Mas também né?
Nem se não quisesse
Aqui fica este texto à vida
À nós.
*Quem não flue em palavras como você tenta ir pelas ideias...te amo amigo.
também, poeta! versos propícios pra nossa saudade!!!
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