segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

É fogo!

A primeira vez que fui ao Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, eu havia completado 18 anos e acabava de ingressar no curso de Jornalismo na Faculdade. O projeto multicultural na Estação da Luz estava recém-inaugurado e aquele mar de leituras não obrigatórias era absolutamente aprazível ao jovem Tupinambá vindo das terras distantes do Norte e dado aos prazeres textuais.

Na ocasião, uma exposição do Grande Sertão Veredas lançava os visitantes para dentro da obra de Rosa, com páginas gigantescas dos manuscritos do mineiro reproduzidas fidedignamente. Um primor, mesmo pra mim, que jamais tinha tido contato com o diálogo de Riobaldo com o porvir, até então. No último andar, a tecnologia embalada pela voz familiar de Fernanda Montenegro narrava a origem da última flor do Lácio. Beleza digna de Bilac.

Quase dez anos depois, o espaço seguiu legitimando sua existência e subvertendo a palavra ‘Museu’ com o melhor da produção cultural do nosso idioma. 

Quase dez anos depois, o fogo consumiu boa parte do prédio centenário que abrigava esse templo bendito da arte, numa segunda-feira chuvosa. 

Deu na TV. O repórter encapuzado narrava as labaredas, em área segura, e anunciava a morte de Ronaldo Pereira da Cruz, um dos primeiros bombeiros a tentar salvar o local, ardendo entre as chamas dessa que nem é uma das principais paixões nacionais. Ali, me revi dez anos antes, começando a amar mais a literatura, incendiado por aquela visita. 

Reza a lenda que, Nero, tocava lira, à la Apolo, enquanto Roma ardia em outro incêndio, também sem causa definida. Alguns apontam para o próprio imperador como autor do incidente que acabou com 4 das 14 repúblicas romanas, mas foram as cabeças dos cristãos rebeldes que rolaram pelas ruas das cidades como forma de justiça ante ao prejuízo. É fogo!

A esperança é de que Alckmin largue a lira depressa e faça alguma coisa por essa parte tão definitiva da história do Brasil para que mais jovens de 18 anos possam arder nessa paixão inflamável que é a nossa literatura por muitos e muitos anos.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Noite Feliz



Ouro, incenso e mirra? Não, o que os 3 Reis-Magos levaram para a noite de Itaipu, em Niterói, ontem, foi música, e música da melhor qualidade!
Iluminados, não por uma estrela guia, mas pelo sol castigante de um verão precoce no Rio de Janeiro, Marcos Nunes, Ton Carfi e PG atenderam ao chamado da Som Livre com a dedicação de monges orientais.
Apesar da falta de pontualidade costumeira na Guanabara, os cantores já estavam à postos às 19h45 no backstage, trocando experiências da estrada e aquecendo a voz nas escalas tradicionais das aulas de canto, enquanto o público ia, devagar, ocupando o espaço rigorosamente organizado pelo perfeccionista Angelo Luiz que, ao longo de 2015, tornou-se os braços, as pernas e o coração do projeto Você Adora nas Igrejas, que a gravadora parturejou com o nobre objetivo de chegar ainda mais junto do povo de Deus, amém!
Abrindo os trabalhos o Magic Johnson do R&B Cristão, Ton Carfi, conduziu o público com a maestria de uma batuta de orquestra. O timbre erudito dando fôlego ao ritmo eletrônico, emocionou e agitou os cariocas do lado de lá da baía. Começamos com o Pé direito!
Depois foi a vez do, ainda pouco conhecido, Marcos Nunes, um baiano atlético, que vive em Goiânia e resolveu trocar o axé tradicional de berço pelo sertanejo sofisticado da terra que lhe deu abrigo e pra quem ele sorriu de volta com composições dignas de poeta. Trata-se da fina flor para as massas, quando traveste os versos complexos de suas composições num arrocha ritmado e contagiante, o Brasil ainda vai ouvir falar muito desse cara que, ontem, mexeu fundo com o coração da plateia ao cantar uma música que narrava a morte de uma jovem longe de Jesus. Letra e interpretação de arrepiar os pêlos até dos menos sensíveis.
Foi quando o experiente PG assumiu o comando da festa. Apesar da congestão de um pós-resfriado agressivo, o roqueiro do Arujá provou que mais de duas décadas de estrada podem tornar a alma do artista ainda mais sólida e blindada até contra os vírus mais incômodos. Confesso que até antes de assisti-lo brincando com falsetes acrobáticos no palco, não acreditei que aquele homem tão abatido pela gripe pudesse dar conta do recado com tanta tranquilidade, e deu!
Cantou sucessos inéditos e outros imortais, como 'Meu universo', arrancando gritos e aplausos efusivos, mesmo sendo o único da noite a fazer voz e violão sem o auxílio de banda. Um verdadeiro Rock Star, capaz de dar o seu recado só e sereno. Ele, aliás, foi o responsável pela palavra da noite, e que palavra... Lembrou que, na crucificação, Jesus se negou a ser anestesiado pela mistura de vinho com mirra para levar sobre Ele o nosso julgo em definitivo.
Por fim, a coordenadora do departamento gospel da Som Livre, Claudia Fonte, lembrando Maria ao aceitar o chamado do anjo Gabriel, se viu satisfeita ao perceber que o filho que gerou sem pecado, que é o Projeto Você Adora nas Igrejas, completou mais um ano de vida transformando a vida de muita gente. E os três mensageiros do evangelho, voltaram às suas terras de destino agradecidos por terem feito parte de uma história que vai ficar escrita pra sempre na Bíblia da vida da gente.

Texto: Márcio Moreira 
Foto: Marcelo Michell