Desde que comecei a escrever crônicas, vez ou outra dava uma relida em
alguns livros que muito me inspiram. Ora a poesia certeira de Drummond, ora a
esguia de Pessoa. Ora as pinturas irônicas das crônicas da Fernanda Torres, ora
as engajadas e não menos irônicas do Duvivier - heróis da minha geração - ao
menos pra mim.
Mas o fato é que nessa segunda-feira recorri à todas essas
possibilidades, li e reli cada texto, assisti as entrevistas de cada um deles,
que sempre me enchem de ideias, mas nada! Estar de frente para o nada é de um susto
sem fim. Quanta violência um papel em branco diante de nós, zombando da nossa
criatividade estéril.
Então conclui que nem sempre há o que dizer. Que, embora haja técnica e
requinte, escrever é um convite de fora pra dentro. Quanta soberba acreditar
que se é capaz de ter uma boa ideia toda semana... Quem somos nós?
Atravesso a zona norte do Rio, a caminho da gravadora, na barra, olho da
janela do ônibus com o apetite de um prisioneiro, ávido por uma única
iluminação, olho para pontos que evitava (a pobreza é sempre tão tocante)
pareço um poço vazio. Profundo, mas seco de qualquer sinal de algo útil de ser
descrito numa crônica.
E é muita a pobreza a ser descrita da janela, já quase chegando à zona
oeste: num lado da calçada, a polícia faz um 'baculejo' numa dupla de jovens,
eles mantêm as mãos na cabeça, enquanto os "tiras" correm as deles
pelos corpos sempre negros dos rapazes sem camisa, mas vestidos de um olhar
assustado e uma expressão submissa. Do outro, uma senhora puxa a neta pelos
braços, para que pare de assistir a cena do lado oposto “vai que sai um tiro”
leio seus lábios de uma boca quase sem dentes. Nada me inspira!
Meu devaneio é interrompido por um ambulante que invade o ônibus,
cumprimenta os passageiros com um texto mecânico e apresenta os doces que
carrega com o domínio de um ‘expert’, descreve os benefícios para a garganta
das balas de hortelã, a delícia crocante de um novo chocolate, tudo mais barato
que nas mãos de qualquer outro vendedor, tenta convencer que é uma oportunidade
única, convence a mim e mais duas ou três pessoas que levam ‘três por um real’,
quando abri a embalagem, o mesmo de sempre, um doce comum e naturalmente
amolecido pela má acomodação de lotação em lotação... ‘Se o Brasil desse
chance, esse cara seria um excelente vendedor de automóveis’, pensei.
Já chegando na linha amarela, me deixei levar pela pintura nos tapumes
que escondem a favela, depois assimilei o sentido de estarem ali, como é cruel
a estratégia de blindagem da nossa visão para lá. É óbvio que o crescimento
desordenado de uma metrópole deixa sequelas graves como a má distribuição e a
ocupação sem infraestrutura, mas erguer paredes com paisagens artificiais é um
insulto à nossa inteligência e uma forma deplorável de anestesiar a nossa
consciência... Mas funciona.
No fim da viagem tenho mais certeza da inutilidade da minha escrita. De
que adianta um belo texto se aqueles meninos da calçada seguirão levando
porrada dos homens de farda? Se aquela velhinha seguira com medo de bala
perdida? De que adianta a poesia se seguimos levando ‘três por um real’ certos
da nossa vantagem, enquanto o vendedor ainda implora a Deus que não traga de
volta pra casa mais nenhuma barra de Toxtic
X ou Toxtic Mega Crocante, porque
senão a família seguirá com fome e o Toxtic
nem será mais tão crocante, o que dificulta a venda do dia seguinte... De que
vale uma estrofe genial se caminhamos por vias expressas envoltas em muralhas
pintando uma vida que não é a nossa pra impedir que olhemos no olho de quem não
teve a chance de viver do lado de cá do asfalto?
Talvez adiante. Talvez trazer pra mais gente a memória do que a gente
recalca por medo, egoísmo e vaidade, possa humanizar um pouco a rocha que nós
forjamos pra dar conta da vida!
Sigo sem inspiração pra poetizar essa segunda-feira, mas em troca
presenteio você, caro leitor, com o mundo real! Não quero ser a mão que pinta
as paredes de um faz de conta, enquanto a fome do outro lado grita calada pelos
nossos ouvidos surdos...
Que Drummond e Pessoa continuem a nos iluminar tornando em versos belos
até o que é feio e que a Nanda e o Gregório não desistam de alimentar a gente
com suas ironias sinceras e, por fim, que eu não perca a fé de que as palavras
podem salvar um afogado se forem ditas de olhos abertos!

Li tatuado num corpo uma vez: "a arte existe porque so a vida nao basta" na minha ignorancia literaria, nao conheço o autor, mas como o corpo conheço bem, sei que a fonte é segura e diz muito pra mim. E se isso foi um dia sem inspiraçao.... poxa... estou aguardando o dia q ela pintar!!!
ResponderExcluirLi tatuado num corpo uma vez: "a arte existe porque so a vida nao basta" na minha ignorancia literaria, nao conheço o autor, mas como o corpo conheço bem, sei que a fonte é segura e diz muito pra mim. E se isso foi um dia sem inspiraçao.... poxa... estou aguardando o dia q ela pintar!!!
ResponderExcluirAmei o olhar. É esse tipo de conclusão que me dá gás pra escrever sempre!!! <3
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