à Pierina
Em casa, de menino, nunca fomos de termômetros.
Nossa mãe boa tinha o dom de medir temperatura à mão. Se reclamávamos algum mal
estar, encostava as costas das mãos na testa e no pescoço, fechava os olhos e
aferia nossas febres assim, na mediunidade materna. Nesse pequeno ritual ela
facilmente distinguia gripe de frescura e era capaz de saber se estávamos
prestes a receber a alta de sua medicina caseira onde quase tudo se curava com
açúcar, água, sal e amor.
Recentemente notei essa capacidade em Beth Goulart, ao assistir
pela 5ª vez o seu espetáculo teatral, "Simplesmente
eu, Clarice Lispector". Fiz questão de mergulhar pela 5ª vez nesse rio de
palavras bonitas e crises sem solução a qual a autora nos destina com sua vida
e sua obra.
Pela quinta vez me submeti à paixão mais
avassaladora que já vi uma atriz devotar ao palco. E que sublime amadurecer
junto com ela como expectador. Lembro-me a experiência da primeira sessão. Ela
dizia aquele texto com o domínio de uma grande atriz, mas o frescor virginal de
uma estreia. Essa semana, 5 anos depois, ela preserva o mesmo domínio e um
frescor diferente, de quem reaprende a cada apresentação o sentido do alfabeto.
Recupero a sensação da infância porque, tal
qual a minha mãe, o corpo de Beth é quase um dom e, com maestria maternal,
medica o expectador atento com doses de beleza poética da mais profunda ordem.
É tão capaz de medir a temperatura a partir do
palco que não permitiu que eu assistisse uma só vez ao mesmo espetáculo. Teve a
proeza de me arrancar lágrimas compulsivas e gargalhadas descontroladas
refazendo a mesma cena em outro tom, a partir da necessidade daquele público
novo, que resignificava as palavras de Clarice.
Ela ali, sozinha no palco, era muitas!
Consegue apontar nossas dores, florescer nossas
vergonhas e até dilacerar nossa pobreza de espírito ao nos ensinar o caminho do
sonho outra vez. Quem sabe a alquimia da genética, que lhe é cara, ou a soma
com um talento tão próprio, traz de volta a vida uma Clarice tão real que, de
início, faz parecer que estamos diante da escritora morta, mas com vida nova.
A semelhança física se dilui numa ilusão de ótica
que ultrapassa a necessidade de contemplação e, até um ‘cego mascando chicletes’
é capaz de sentir sua presença irreversível. Simplesmente ela.
Meio bailarina, dá conta não apenas de Lispector
como também de suas muitas personagens: Ana, Loren e tantas outras mulheres tão
complexas que nos agarra à impressão de que de fato existiram.
Saí pela 5ª vez do teatro como que medicado, de
um remédio novo, inédito, dado à mão no queixo por uma das maiores atrizes que
o Brasil já assistiu em cena. Nas oportunidades em que estive perto de Beth,
minhas poucas palavras eram de gratidão. De alguém enfermo que carece de sua
arte para tornar a dar conta da realidade.
A falta de lucidez de um palco é o combustível pra
uma vida inteira de sobriedade. Se há um jeito de enxergar o mundo a qual me
identifico é pelas lentes do ‘faz de conta’. Nela me lanço e reaprendo o
sentido das coisas com a pureza de quem não precisa do real para ser rei.
Suspeito que Nicette Bruno também não precise
de termômetro em casa.

Post incrivel, protesto.... quero Beth em Belem... vem Beth... vambora... quero brincar de faz de conta tambem!!!
ResponderExcluirSensacional!!!
ResponderExcluirSimplesmente texto genial
ExcluirPost incrivel, protesto.... quero Beth em Belem... vem Beth... vambora... quero brincar de faz de conta tambem!!!
ResponderExcluirExcelente o texto!
ResponderExcluirTexto maravilhoso! Amei!
ResponderExcluirParabéns pelo Blog e pela sensibilidade em expor sua genialidade e sentimentos...
Obrigado, querida! Seja sempre bem-vinda aqui!!!
ExcluirTexto maravilhoso! Amei!
ResponderExcluirParabéns pelo Blog e pela sensibilidade em expor sua genialidade e sentimentos...