segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Simplesmente ela


à Pierina

Em casa, de menino, nunca fomos de termômetros. Nossa mãe boa tinha o dom de medir temperatura à mão. Se reclamávamos algum mal estar, encostava as costas das mãos na testa e no pescoço, fechava os olhos e aferia nossas febres assim, na mediunidade materna. Nesse pequeno ritual ela facilmente distinguia gripe de frescura e era capaz de saber se estávamos prestes a receber a alta de sua medicina caseira onde quase tudo se curava com açúcar, água, sal e amor.

Recentemente notei essa capacidade em Beth Goulart, ao assistir pela 5ª vez o seu espetáculo teatral, "Simplesmente eu, Clarice Lispector". Fiz questão de mergulhar pela 5ª vez nesse rio de palavras bonitas e crises sem solução a qual a autora nos destina com sua vida e sua obra.

Pela quinta vez me submeti à paixão mais avassaladora que já vi uma atriz devotar ao palco. E que sublime amadurecer junto com ela como expectador. Lembro-me a experiência da primeira sessão. Ela dizia aquele texto com o domínio de uma grande atriz, mas o frescor virginal de uma estreia. Essa semana, 5 anos depois, ela preserva o mesmo domínio e um frescor diferente, de quem reaprende a cada apresentação o sentido do alfabeto.

Recupero a sensação da infância porque, tal qual a minha mãe, o corpo de Beth é quase um dom e, com maestria maternal, medica o expectador atento com doses de beleza poética da mais profunda ordem.

É tão capaz de medir a temperatura a partir do palco que não permitiu que eu assistisse uma só vez ao mesmo espetáculo. Teve a proeza de me arrancar lágrimas compulsivas e gargalhadas descontroladas refazendo a mesma cena em outro tom, a partir da necessidade daquele público novo, que resignificava as palavras de Clarice.

Ela ali, sozinha no palco, era muitas!

Consegue apontar nossas dores, florescer nossas vergonhas e até dilacerar nossa pobreza de espírito ao nos ensinar o caminho do sonho outra vez. Quem sabe a alquimia da genética, que lhe é cara, ou a soma com um talento tão próprio, traz de volta a vida uma Clarice tão real que, de início, faz parecer que estamos diante da escritora morta, mas com vida nova.

A semelhança física se dilui numa ilusão de ótica que ultrapassa a necessidade de contemplação e, até um ‘cego mascando chicletes’ é capaz de sentir sua presença irreversível. Simplesmente ela.

Meio bailarina, dá conta não apenas de Lispector como também de suas muitas personagens: Ana, Loren e tantas outras mulheres tão complexas que nos agarra à impressão de que de fato existiram.

Saí pela 5ª vez do teatro como que medicado, de um remédio novo, inédito, dado à mão no queixo por uma das maiores atrizes que o Brasil já assistiu em cena. Nas oportunidades em que estive perto de Beth, minhas poucas palavras eram de gratidão. De alguém enfermo que carece de sua arte para tornar a dar conta da realidade.

A falta de lucidez de um palco é o combustível pra uma vida inteira de sobriedade. Se há um jeito de enxergar o mundo a qual me identifico é pelas lentes do ‘faz de conta’. Nela me lanço e reaprendo o sentido das coisas com a pureza de quem não precisa do real para ser rei.


Suspeito que Nicette Bruno também não precise de termômetro em casa. 

8 comentários:

  1. Post incrivel, protesto.... quero Beth em Belem... vem Beth... vambora... quero brincar de faz de conta tambem!!!

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  2. Post incrivel, protesto.... quero Beth em Belem... vem Beth... vambora... quero brincar de faz de conta tambem!!!

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  3. Texto maravilhoso! Amei!
    Parabéns pelo Blog e pela sensibilidade em expor sua genialidade e sentimentos...

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  4. Texto maravilhoso! Amei!
    Parabéns pelo Blog e pela sensibilidade em expor sua genialidade e sentimentos...

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