segunda-feira, 4 de abril de 2016

Uma Rosa da minha terra



O conterrâneo é o parente onde a geografia cumpre o papel do laço sanguíneo. Nem precisa ser da mesma família para notar muito parecido um jeito de falar, uma preferência musical, uma ótica pela qual se enxerga o mundo.

O conterrâneo, assim como o parente, preserva referências afetivas comuns, nutre expectativas gêmeas a respeito de mudanças políticas e carrega uma espécie de semelhança abstrata que os une, ainda que já não vivam na terra onde nasceram.

Aliás, para quem vive longe da terra de nascença, então, o encontro com um conterrâneo é um isopor para um afogado. Intimidades logo são estabelecidas e a memória da cidade, onde se nasceu, reascende um saudosismo particular e confidente. Já não estamos sós e temos parte nesse mundo com alguém. Ufa!

Neste sábado, tive esse tipo de salvação. Completando 60 anos de carreira, Rosa Maria Murtinho, minha conterrânea, foi anfitriã de uma comemoração dedicada à sua própria história em cena. Assisti-la ao vivo me encheu de vida.

Dirigida pelo jovem Jorge Farjalla, Rosa Maria escolheu soprar essas velas no palco e bem longe da zona de conforto. Encarnou a amargurada ‘Dona Flávia’, numa adaptação poética de ‘Dorotéia’, do anjo pornográfico, Nelson Rodrigues.

Quase três horas em cena, a atriz prova que a experiência vence a idade, e com seus mais de 70 anos de vida, dançou, gritou, chorou, gemeu, caiu e levantou com a avidez de uma menina, magia que o teatro proporciona ao brindar atores e público com o tempo encantado do faz de conta.

A revelia da tradição na qual as atrizes costumam comemorar suas datas importantes com monólogos, a paraense trouxe junto com ela um elenco brilhante que deu suporte à narrativa rodriguiana complexa, na qual se faz necessário mudar a atenção objetiva por uma leitura abstrata, razoando metáforas para explicar o inexplicável.

‘Dorotéia’ é a derradeira peça do ciclo das obras do Teatro Desagradável, como Nelson descrevia, e narra o encontro entre a beleza e a feiura, numa disputa por espaço dentro da gente. Composta por grandes atrizes, músicos com habilidade cirúrgica na precisão do som, um cenário inteligente e refinado, além de caracterizações impecáveis, a montagem do Farjalla contou ainda com a interpretação inenarrável de Letícia Spiller, que há muito não precisa provar que a paquita deu espaço à uma atriz inteira e definitiva.

Com a nudez e o humor característicos das construções de Nelson Rodrigues, a peça é um convite à reflexão da aparência atualíssimo, embora escrita em 1949. E, como tipicamente o autor é capaz, joga o expectador diante do espelho onde o que há de belo e terrível em nós vem à tona.

Rosa Maria Murtinho é um espetáculo dentro do espetáculo e faz às vezes iconoclástica de destruir as grã-finas das novelas das oito e nos presentear a todos com um talento retumbante de uma atriz que não se entregou ao caloroso ambiente do sucesso, escolhendo se reinventar diante dos nossos olhos emocionados.

Mesmo que ela tenha saído ainda pequena da minha cidade, trato meu carinho por Rosa como o carinho de um ente da família, uma legítima conterrânea, alguém que carrega consigo o que eu também carrego comigo.





3 comentários:

  1. Acordar e se deparar com mais um belo texto de Márcio Moreira é prenúncio de um dia maravilhoso! Sem economizar seu talento para escrever, Marcinho nos presenteia, mais uma vez, com a possibilidade de nos emocionar e nos encher de satisfação. Nossa conterrânea (sim, sou filho adotivo dessa terra abençoada) Rosamaria Murtinho foi merecidamente agraciada com palavras que registram de forma tão especial o quanto é importante para a nossa tramaturgia, quanto para nós paraenses. Parabéns! Aos dois...

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Mais um texto maravilhoso e um vazio de.nao poder compartilhar essa atuaçao com vc!!! Pena que essas coisas demoram tanto a nos visitar... beijo grande e boa semana

    ResponderExcluir