O conterrâneo é o parente onde a geografia cumpre o
papel do laço sanguíneo. Nem precisa ser da mesma família para notar muito
parecido um jeito de falar, uma preferência musical, uma ótica pela qual se
enxerga o mundo.
O conterrâneo, assim como o parente, preserva
referências afetivas comuns, nutre expectativas gêmeas a respeito de mudanças
políticas e carrega uma espécie de semelhança abstrata que os une, ainda que já
não vivam na terra onde nasceram.
Aliás, para quem vive longe da terra de nascença,
então, o encontro com um conterrâneo é um isopor para um afogado. Intimidades
logo são estabelecidas e a memória da cidade, onde se nasceu, reascende um
saudosismo particular e confidente. Já não estamos sós e temos parte nesse
mundo com alguém. Ufa!
Neste sábado, tive esse tipo de salvação.
Completando 60 anos de carreira, Rosa Maria Murtinho, minha conterrânea, foi
anfitriã de uma comemoração dedicada à sua própria história em cena. Assisti-la
ao vivo me encheu de vida.
Dirigida pelo jovem Jorge Farjalla, Rosa Maria
escolheu soprar essas velas no palco e bem longe da zona de conforto. Encarnou
a amargurada ‘Dona Flávia’, numa adaptação poética de ‘Dorotéia’, do anjo
pornográfico, Nelson Rodrigues.
Quase três horas em cena, a atriz prova que a
experiência vence a idade, e com seus mais de 70 anos de vida, dançou, gritou,
chorou, gemeu, caiu e levantou com a avidez de uma menina, magia que o teatro
proporciona ao brindar atores e público com o tempo encantado do faz de conta.
A revelia da tradição na qual as atrizes costumam
comemorar suas datas importantes com monólogos, a paraense trouxe junto com ela
um elenco brilhante que deu suporte à narrativa rodriguiana complexa, na qual
se faz necessário mudar a atenção objetiva por uma leitura abstrata, razoando
metáforas para explicar o inexplicável.
‘Dorotéia’ é a derradeira peça do ciclo das obras
do Teatro Desagradável, como Nelson
descrevia, e narra o encontro entre a beleza e a feiura, numa disputa por
espaço dentro da gente. Composta por grandes atrizes, músicos com habilidade
cirúrgica na precisão do som, um cenário inteligente e refinado, além de
caracterizações impecáveis, a montagem do Farjalla contou ainda com a
interpretação inenarrável de Letícia Spiller, que há muito não precisa provar
que a paquita deu espaço à uma atriz inteira e definitiva.
Com a nudez e o humor característicos das
construções de Nelson Rodrigues, a peça é um convite à reflexão da aparência
atualíssimo, embora escrita em 1949. E, como tipicamente o autor é capaz, joga
o expectador diante do espelho onde o que há de belo e terrível em nós vem à
tona.
Rosa Maria Murtinho é um espetáculo dentro do
espetáculo e faz às vezes iconoclástica de destruir as grã-finas das novelas
das oito e nos presentear a todos com um talento retumbante de uma atriz que
não se entregou ao caloroso ambiente do sucesso, escolhendo se reinventar
diante dos nossos olhos emocionados.
Mesmo que ela tenha saído ainda pequena da minha
cidade, trato meu carinho por Rosa como o carinho de um ente da família, uma
legítima conterrânea, alguém que carrega consigo o que eu também carrego
comigo.

Acordar e se deparar com mais um belo texto de Márcio Moreira é prenúncio de um dia maravilhoso! Sem economizar seu talento para escrever, Marcinho nos presenteia, mais uma vez, com a possibilidade de nos emocionar e nos encher de satisfação. Nossa conterrânea (sim, sou filho adotivo dessa terra abençoada) Rosamaria Murtinho foi merecidamente agraciada com palavras que registram de forma tão especial o quanto é importante para a nossa tramaturgia, quanto para nós paraenses. Parabéns! Aos dois...
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ResponderExcluirMais um texto maravilhoso e um vazio de.nao poder compartilhar essa atuaçao com vc!!! Pena que essas coisas demoram tanto a nos visitar... beijo grande e boa semana
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