segunda-feira, 28 de março de 2016

Crônica auto-poética


Quando aprendi a escrever poesia e entendi que, mais do que a rima, a metáfora era a alma de um verso, passei a poetizar tudo: pássaro era gente, beijo, uma explosão, amor, a chuva mais forte da tarde na vida da gente e desejo uma sede que não era de água.

Fácil, fácil, tudo ia se tornando de um romantismo atroz. Já moço, trocava os primeiros versos por um selinho em secreto no prédio ao lado e o meu jeito byroniano de entrar na adolescência me consentia algum valor erudito, já que sempre fui gordinho e quatro olhos.

Na base do verso cai no gosto dos professores e ia me arrastando nas exatas sempre trazendo como triunfo a minha habilidade de falar bonito. ‘E daí que ele não sabe dividir... já leu o que ele escreveu para a festa de fim de ano?’, diziam.

Com o tempo a coisa foi se agravando e do ato de falar por meio de símbolos passei a enxergar, poético, a realidade a minha volta: O entardecer era gris, o amanhecer, riso farto do sol, uma planta que dava fruto era um parto de sabor incauto... Danou-se. Virei poeta!

Nas seletivas de vestibular, nenhuma opção parecia se encaixar com a minha ânsia pela desconstrução verbal... Letras era sério demais, Artes, de menos... Jornalismo... Isso! Inscrevi-me em todos os cursos possíveis, passei e cursei com gosto. Minhas tiradas imagéticas eram bem vindas.

No primeiro estágio, as ondas da rádio Rauland, carregavam consigo, logo cedo, alguma façanha poética tornando a notícia áspera mais palatável para os ouvintes. Depois, já na tevê, o jogo entre texto e imagem limitava um pouco a minha sina e acabei não durando mais do que três anos por lá.

Com a maturidade profissional fui internalizando a poesia e deixando brotar uma essência mais séria na minha forma de dizer o dizível... piorou... parei de enxergar com poesia e passei a sentir com ela.

Como uma espécie de oxigênio que alimenta meus pulmões me convocando à existência, quase nada me era filtrado pela via objetiva da vida cotidiana: Uma bronca era um soco duro na cara da minha tranquilidade, o riso, um carinho com os dedos da simpatia e o amor... seguia sendo a chuva mais forte da tarde na vida da gente.

Mesmo calado, passei a sentir, com uma fome cada vez mais instigante, a metáfora por trás das coisas. Na vida ordinária interpreto um adulto comum que encontra uma pedra e não a cumprimenta como a vedete do poema do Drummond.

Ajo, discuto, reflito, como, trabalho e até namoro como se enxergasse nas coisas apenas a camada fria do que elas são, mas dentro de mim, alguma voz que eu mesmo adestrei segue me descrevendo a cor dos perfumes, a cara dos gestos, o hálito das palavras o som de sementes abraçando a terra até plantarem vida no que a gente colhe depois.

Já me questionei se isso era algum tipo de esquizofrenia severa, mas minha preocupação virou uma canção que compus em segredo. Quem sabe eu cante?

Alguém me perguntou, recente: ‘mas pra que é que serve tanta poesia?’ E eu calei em mim um bolero que talvez um dia faça alguém dançar a sua serventia.


7 comentários:

  1. Sinto como se uma parte da minha alma fosse extensão da tua. E a tua, de poeta, se hospedou na minha buscando imortalizar. Somos um, entre tantos que não fazemos tanta questão de ser.

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  2. Isso tudo me fez lembrar ZD que consegue sentir sabor no gesto... sera que meu encanto por ela é pelo reflexo teu?

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  3. Teu texto me acalma a alma,mesmo não sabendo escrever como fazes, me encontro nas tuas palavras. Não perca a chance de poetizar o agora, o real, a vida. Faça meu sobrinho o que fazes de melhor escrever.

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  4. Comentários cheios de carinho que me encorajam a seguir escrevendo... Amo vcs!!!

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  5. Acordar cedo e te ler inspira um dia reflexivo meu amigo. Meu comentário não é meu mas de outra Pessoa, tentando sugerir uma resposta para a questão que lhe fizeram (mas para que é que serve tanta poesia?)..Não Digas Nada!

    Não digas nada!
    Nem mesmo a verdade
    Há tanta suavidade em nada se dizer
    E tudo se entender —
    Tudo metade
    De sentir e de ver...
    Não digas nada
    Deixa esquecer

    Talvez que amanhã
    Em outra paisagem
    Digas que foi vã
    Toda essa viagem
    Até onde quis
    Ser quem me agrada...
    Mas ali fui feliz
    Não digas nada.

    Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

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  6. Entre tantas outras a tua arte é essa Márcio, o que seríamos sem a linguagem, mas vou um pouco além o que seríamos fazendo melhor uso dela?!
    Muito bom poder saber da tua história no versos e refletir sobre suas palavras.

    Muita luz em seu caminho.

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  7. Que coisa mais linda ... Assim te vejo... Quanto ao curso de Artes ... Posso te dizer que esperava que fosse menos sério;)

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