Quando aprendi a escrever poesia e entendi que,
mais do que a rima, a metáfora era a alma de um verso, passei a poetizar tudo:
pássaro era gente, beijo, uma explosão, amor, a chuva mais forte da tarde na
vida da gente e desejo uma sede que não era de água.
Fácil, fácil, tudo ia se tornando de um romantismo
atroz. Já moço, trocava os primeiros versos por um selinho em secreto no prédio
ao lado e o meu jeito byroniano de entrar na adolescência me consentia algum
valor erudito, já que sempre fui gordinho e quatro olhos.
Na base do verso cai no gosto dos professores e ia
me arrastando nas exatas sempre trazendo como triunfo a minha habilidade de
falar bonito. ‘E daí que ele não sabe dividir... já leu o que ele escreveu para
a festa de fim de ano?’, diziam.
Com o tempo a coisa foi se agravando e do ato de
falar por meio de símbolos passei a enxergar, poético, a realidade a minha
volta: O entardecer era gris, o amanhecer, riso farto do sol, uma planta que
dava fruto era um parto de sabor incauto... Danou-se. Virei poeta!
Nas seletivas de vestibular, nenhuma opção parecia
se encaixar com a minha ânsia pela desconstrução verbal... Letras era sério
demais, Artes, de menos... Jornalismo... Isso! Inscrevi-me em todos os cursos
possíveis, passei e cursei com gosto. Minhas tiradas imagéticas eram bem
vindas.
No primeiro estágio, as ondas da rádio Rauland,
carregavam consigo, logo cedo, alguma façanha poética tornando a notícia áspera
mais palatável para os ouvintes. Depois, já na tevê, o jogo entre texto e
imagem limitava um pouco a minha sina e acabei não durando mais do que três
anos por lá.
Com a maturidade profissional fui internalizando a
poesia e deixando brotar uma essência mais séria na minha forma de dizer o
dizível... piorou... parei de enxergar com poesia e passei a sentir com ela.
Como uma espécie de oxigênio que alimenta meus
pulmões me convocando à existência, quase nada me era filtrado pela via
objetiva da vida cotidiana: Uma bronca era um soco duro na cara da minha
tranquilidade, o riso, um carinho com os dedos da simpatia e o amor... seguia
sendo a chuva mais forte da tarde na vida da gente.
Mesmo calado, passei a sentir, com uma fome cada
vez mais instigante, a metáfora por trás das coisas. Na vida ordinária
interpreto um adulto comum que encontra uma pedra e não a cumprimenta como a
vedete do poema do Drummond.
Ajo, discuto, reflito, como, trabalho e até namoro
como se enxergasse nas coisas apenas a camada fria do que elas são, mas dentro
de mim, alguma voz que eu mesmo adestrei segue me descrevendo a cor dos
perfumes, a cara dos gestos, o hálito das palavras o som de sementes abraçando
a terra até plantarem vida no que a gente colhe depois.
Já me questionei se isso era algum tipo de
esquizofrenia severa, mas minha preocupação virou uma canção que compus em
segredo. Quem sabe eu cante?
Alguém me perguntou, recente: ‘mas pra que é que serve
tanta poesia?’ E eu calei em mim um bolero que talvez um dia faça alguém dançar
a sua serventia.

Sinto como se uma parte da minha alma fosse extensão da tua. E a tua, de poeta, se hospedou na minha buscando imortalizar. Somos um, entre tantos que não fazemos tanta questão de ser.
ResponderExcluirIsso tudo me fez lembrar ZD que consegue sentir sabor no gesto... sera que meu encanto por ela é pelo reflexo teu?
ResponderExcluirTeu texto me acalma a alma,mesmo não sabendo escrever como fazes, me encontro nas tuas palavras. Não perca a chance de poetizar o agora, o real, a vida. Faça meu sobrinho o que fazes de melhor escrever.
ResponderExcluirComentários cheios de carinho que me encorajam a seguir escrevendo... Amo vcs!!!
ResponderExcluirAcordar cedo e te ler inspira um dia reflexivo meu amigo. Meu comentário não é meu mas de outra Pessoa, tentando sugerir uma resposta para a questão que lhe fizeram (mas para que é que serve tanta poesia?)..Não Digas Nada!
ResponderExcluirNão digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"
Entre tantas outras a tua arte é essa Márcio, o que seríamos sem a linguagem, mas vou um pouco além o que seríamos fazendo melhor uso dela?!
ResponderExcluirMuito bom poder saber da tua história no versos e refletir sobre suas palavras.
Muita luz em seu caminho.
Que coisa mais linda ... Assim te vejo... Quanto ao curso de Artes ... Posso te dizer que esperava que fosse menos sério;)
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