Todo contato com a arte, quer seja emitindo ou
recebendo sua frequência de beleza, por meio da poesia, da dança, de uma
melodia, ou de uma interpretação bem executada, é uma espécie de catarse. Um
salto pra fora de nós mesmos em busca de algo que nem sabíamos ter perdido.
Se a obra é ordinária, nos entretém. Se ela é boa,
nos dá sede por essa busca, mas se é excelente, torna-se capaz de nos propiciar
um encontro irremediável com um recorte da nossa alma.
Em 2008 o cinema estreou a adaptação do livro homônimo
de Sue Monk Kidd, ‘A vida secreta das abelhas’, dirigida por Gina
Prince-Bythewood. Apesar do preconceito que muitos têm com os ditos blockbusters,
o elenco estrelar composto pela pequena notável Dakota Fanning, a, ao mesmo
tempo, cômica e tocante Queen Latifah e a surpreendente Alicia Keys, que até
então só conhecia por trás do piano com timbres avassaladores, deram vida à
personagens de uma história tão intrigante quanto cruel.
Minha maior surpresa, no entanto, foi interpretação
da coadjuvante Sophie Okonedo, uma atriz inglesa que até então desconhecia. Para
não cometer ‘spoilers’, resumo o enredo do filme à busca culpada de Lilly (Dakota)
pelo passado de sua mãe, entrecruzada pelas irmãs Boatwright, respeitadas
apicultoras negras em um período de profundo preconceito de raça nos Estados
Unidos de 60.
A história, oxigenada pela metáfora da vida das
abelhas, revela as sequelas que carregamos ao enfrentarmos o lado difícil da
vida. Dito assim soa como autoajuda mas é mais, trata-se do salto ao qual nos
encorajamos dar, quando tudo o que nos resta é o abismo dos nossos medos.
Closes no olhar assustadoramente expressivo da
jovem Fanning nos transporta a dor aguda da luta contra o desconhecido. O canto
negro das irmãs Boatwright, um lamento de resistência temperado pela fé de um
povo oprimido. Trata-se de uma ode à vida, sem a edição das partes ruins. Um
primor em tempos de produções rasas e sem alma.
Okonedo dá vida à May Boatwright, uma mulher que,
ao perder a irmã gêmea com quem tinha uma ligação transcendental, passa à ser
invadida pelos sentimentos que atravessam o mundo a sua volta, como uma
catalizadora de emoções alheias, sofre e se alegra com tudo aquilo que a cerca,
nos ensinando que ‘as vezes é melhor não sentir para dar conta da vida e
sobreviver’, num misto de esquizofrenia absolutamente verossímil e sabedoria poética
ancestral traduzida em sua pele negra.
Apesar de 8 anos atrasado, fui acometido de um
sentimento tão tangível ao assistir esse filme escolhido ao acaso num feriado
qualquer, que precisei compartilhar aqui. Antes tarde do que nunca, afinal a
beleza que nos tira do lugar comum merece ser sempre revisitada.






