segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Sobre as abelhas de um blockbuster



Todo contato com a arte, quer seja emitindo ou recebendo sua frequência de beleza, por meio da poesia, da dança, de uma melodia, ou de uma interpretação bem executada, é uma espécie de catarse. Um salto pra fora de nós mesmos em busca de algo que nem sabíamos ter perdido.

Se a obra é ordinária, nos entretém. Se ela é boa, nos dá sede por essa busca, mas se é excelente, torna-se capaz de nos propiciar um encontro irremediável com um recorte da nossa alma.

Em 2008 o cinema estreou a adaptação do livro homônimo de Sue Monk Kidd, ‘A vida secreta das abelhas’, dirigida por Gina Prince-Bythewood. Apesar do preconceito que muitos têm com os ditos blockbusters, o elenco estrelar composto pela pequena notável Dakota Fanning, a, ao mesmo tempo, cômica e tocante Queen Latifah e a surpreendente Alicia Keys, que até então só conhecia por trás do piano com timbres avassaladores, deram vida à personagens de uma história tão intrigante quanto cruel.

Minha maior surpresa, no entanto, foi interpretação da coadjuvante Sophie Okonedo, uma atriz inglesa que até então desconhecia. Para não cometer ‘spoilers’, resumo o enredo do filme à busca culpada de Lilly (Dakota) pelo passado de sua mãe, entrecruzada pelas irmãs Boatwright, respeitadas apicultoras negras em um período de profundo preconceito de raça nos Estados Unidos de 60.

A história, oxigenada pela metáfora da vida das abelhas, revela as sequelas que carregamos ao enfrentarmos o lado difícil da vida. Dito assim soa como autoajuda mas é mais, trata-se do salto ao qual nos encorajamos dar, quando tudo o que nos resta é o abismo dos nossos medos.

Closes no olhar assustadoramente expressivo da jovem Fanning nos transporta a dor aguda da luta contra o desconhecido. O canto negro das irmãs Boatwright, um lamento de resistência temperado pela fé de um povo oprimido. Trata-se de uma ode à vida, sem a edição das partes ruins. Um primor em tempos de produções rasas e sem alma.

Okonedo dá vida à May Boatwright, uma mulher que, ao perder a irmã gêmea com quem tinha uma ligação transcendental, passa à ser invadida pelos sentimentos que atravessam o mundo a sua volta, como uma catalizadora de emoções alheias, sofre e se alegra com tudo aquilo que a cerca, nos ensinando que ‘as vezes é melhor não sentir para dar conta da vida e sobreviver’, num misto de esquizofrenia absolutamente verossímil e sabedoria poética ancestral traduzida em sua pele negra.

Apesar de 8 anos atrasado, fui acometido de um sentimento tão tangível ao assistir esse filme escolhido ao acaso num feriado qualquer, que precisei compartilhar aqui. Antes tarde do que nunca, afinal a beleza que nos tira do lugar comum merece ser sempre revisitada.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Vida On Demand



Sou de um tempo longínquo quando, para não se perder uma programação na TV, era necessário programar-se com bastante antecedência. Éramos escravos da grade de horário da televisão e sujeitávamos nossa rotina diária ao bel prazer dos programadores.

Surge, então, uma tecnologia que parece sempre ter estado à nossa disposição, mas trata-se de um recente fenômeno que emerge de modo mais nítido em feriados prolongados como o carnaval. Toda uma programação rendida ao nosso desejo na distância de um click do controle remoto.

Pacotes mensais a preços simbólicos são a chave de acesso à toda sorte de filmes, séries, desenhos, shows e sitcons na hora e dia que nós bem entendermos. A Era do ‘On Demand’. Isto é, episódios, capítulos e temporadas regidos ao crônos do desejo hedonismo do homem contemporâneo.  Uau, mas onde isso vai dar?

Infelizmente, a lógica da vida humana ainda não chegou nesse nível de elevação. Temos que calcular a aritmética do horário de acordar com a pontualidade do transporte público caso queiramos chegar à tempo no trabalho. Perdemos muito pouco tempo com aquilo que, de fato, dá sentido e propósito à nossa existência. Somos escravos do relógio capitalista do ‘pra ontem’ e mal damos conta do hoje.

Engraçada essa sensação de que o planeta passou a girar com maior velocidade. Dias e noites tão curtos quanto os nossos prazos para entregarmos grandes projetos. Você já se deu conta de que nas mesmas 24h de hoje éramos capaz de realizar muito mais atividades na nossa infância?

Lembro-me que nas tardes da minha meninice os relógios não tinham ponteiros. Nas escadas do prédio onde morávamos era possível ser polícia e ladrão, agente secreto e super-herói... tudo antes mesmo da mãe servir o jantar. Nas tardes de hoje, onde os ponteiros não apenas existem como ditam o compasso dos meus passos, mal dou conta de ser eu mesmo e a noite chega silenciosa, anunciando que o dia já seguiu seu curso.

Não vamos longe, basta assistir a um filme da década de 70 e depois um rodado hoje. No cinema do passado, as cenas fortes eram sucedidas por longos takes de paisagem com boa trilha sonora, como que para nos ajudar a digerir o sentido das falas interpretadas minutos antes. Nos atuais, mal nos enlutamos pela morte da mocinha e o vilão já é revelado e vingado pelo herói que representa a nossa justiça, sem tempo a perder. A vida real é cada vez menos ‘On demand’.

Não somos mais escravos dos programadores de TV, mas eles nos levaram à praça pública, sob o julgo do sonho da vida bem sucedida e o capital, aprovando nossa arcada dentária completa, arremata nossos grilhões para servirmos aos novos senhores de engenho que controlam o tempo com o chicote das horas sob o sedutor álibi do consumo: ‘Tenho, logo existo’.

A verdade é que a programação não sede à nossa vontade, mas à nossa falta de tempo. Filhos crescem sob a batuta das babás, porque os pais estão tentando garantir o futuro, sem perceber que o que o define é o presente guardado na caixinha do ‘depois’.

O paradoxo da existência contemporânea é acumular ao máximo com tempo mínimo para usufruir. Como tentar gozar da sombra de uma semente, já que a árvore não nascerá em tempo hábil.

Quisera eu que a vida fosse tão ‘On Demand’ quanto a tevê.  Assim seria possível olhar para as coisas com tempo suficiente para entendermos com profundidade o que elas são e um texto de blog teria a competência de alcançar mais leitores do que as crônicas do Bial que eliminam participantes de um reality de plástico que chega com sucesso à décima sexta edição vazia e vulgar à custa do tempo que nos resta para sermos mais do que meros expectadores da nossa própria vida.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

É Carnaval!



Se o Brasil é o País do carnaval, o Rio é o berço esplendido da festa de momo. Uma espécie de porto onde todas as opções ‘foliônicas’ atracam seus navios de diversão e colorem a cidade de todas as cores da bandeira da alegria, certo? Nem pra todos!

Prometo não jogar água no chopp do folião entusiasmado com a serpentina, mas é impossível passar ileso ao impacto que o cotidiano sofre com essa invasão da ‘felicidade alheia’. Que, aliás, vitimou dezenas de pombos no ensaio do Salgueiro na última semana. À troco de quê?

Levei tempo para me acostumar com essa rotina carioca de fugir da cidade no mês de fevereiro. Achava uma atitude blasê da burguesia cult que, tão logo tinham oportunidade, fugia para a Serra. Hoje, três anos instalado sob a sombra do Cristo, compreendo que esse “salve-se quem puder” é a tradução direta de um sintoma que agita a cultura brasileira desde os tempos de Cabral.

É só a mulata começar a sambar seminua em horário nobre que os blocos ganham as ruas em marchinhas infernais que, ora bloqueiam vias importantes e ora presenteiam as calçadas com os mais diversos odores oriundos dos fluidos corporais de gringos incautos e turistas nacionais em êxtase: “Pode tudo, afinal é carnaval”.

A prefeitura ganha com turismo espontâneo e licitações de banheiros químicos, quase nunca utilizados, as agremiações se legitimam colocando suas escolas na avenida com as protagonistas, ‘das oito’, rebolando até o chão e bradando o samba-enredo num delay infinito e a população, que não tem samba no pé, que se dane para encontrar percursos alternativos para chegar ao trabalho até antes do feriado. Sim, porque a festa tem Esquenta na TV e na vida e só acaba muito depois de quarta-feira nas ressacas de pós-carnaval.

Perceba, caro leitor, que a minha insatisfação não é com a festa em si. Acho bonita essa capacidade tão brasileira de vestir a fantasia do ‘apesar de...’ e sair às ruas decidido à ser feliz, mas acho importante salientar que a mesma população que junta cada centavo para costurar um adereço exuberante nas ruas, sofre as barbáries do desmando de uma política excludente e coronelista.

Somos o país do analfabetismo, do crime organizado e recordista nos quesitos de prostituição infantil e moradia de rua. O Rio, que cedia as Olimpíadas e é a passarela de um dos mais tradicionais carnavais brasileiros vive sob o comando de um poder paralelo sustentado pelo narcotráfico e todo mundo sabe. E daí?

E daí que esse é o período de grandes decisões no congresso, que são aprovadas debaixo do nosso nariz de palhaço. Nos municípios a maioria dos orçamentos do ano são defendidas e definidas enquanto a gente canta ‘Alalaô’.

Enfim, sou 100% brasileiro e a nossa cultura ganha notoriedade nesse período, admito, pelo menos nos Estados que, de alguma maneira, enriquecem nesse feriado, visto que cidades como Belém, por exemplo, usam a avenida para desfilar mais uma resistência cultural do que uma beleza artística factível. E é belo ver como a massa é poderosa ao entoar seus cantos que gritam por mais respeito à arte de um povo, do que para comemorar o que quer que seja.


Quanto à mim, vou para a serra!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Aniversário



Comecei a ler a 'Bíblia do Caos', do Millôr, em recomendação do Duvivier numa de suas crônicas. É um livro de fraseados geniais que envolvem o melhor da ironia e do humor do Millor Definitivo, como se intitula na capa, em organização de dicionário. Um primor da nossa língua! 

Ri e me questionei com diversas de suas frases ácidas, que dão a sensação cortante de uma flecha definitiva nos nossos conceitos pre-estabelecidos, mas uma em especial me pôs pensando até agora: "Aniversário é uma festa pra te lembrar do que resta". Simples e direto como que lançado do arco de suas palavras. Me acertou em cheio.

Em parte porque, de fato, hoje é meu aniversário, em parte porque é tão óbvio, mas tão pouco razoado por mim que chego a me sentir meio estúpido por nunca ter pensado nisso antes.

Nós mortais, com essa capacidade de sonhar, acabamos acreditando que somos pra sempre e soprando velas olhando pra frente de olhos fechados, quando na verdade o retrovisor é que detém a razão de estarmos aqui. Fico me perguntando o quê o Márcio Menino diria para o Márcio de Agora: 

"Belém, 25 de janeiro de 1996

Querido Márcio com Vinte e Poucos,
você tem um monte de namorada? Vai casar só bem velhinho né?! Virou artista? O pai te deu um ap legal? Come pizza quando quiser e refrigerante de manhã, sem a chata da mãe? Não vejo a hora de ser você!

Beijos, 
Márcio Menino."

Seria um caminhão de perguntas de um questionário infinito e eu talvez respondesse pacientemente: 

"Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 2016

Caro Márcio Menino,

Desculpa a demora em te responder... É que por aqui as coisas têm andado muito frenéticas (se não souber o que significa essa palavra pergunta pra mana, nessa altura ela já deve saber) quanto às suas perguntas:
Vou casar com a mulher mais especial que já namorei, mas ela apareceu dez anos antes do que você esperava, sinto muito. Continuo sendo artista, mas o gozado é que você já é e não sabe disso. Moro num ap excelente, principalmente porque eu pago as contas dele com o esforço do meu trabalho, mas sou eternamente grato pelo que o pai fez por nós até aqui. Infelizmente, mesmo sem a rigidez da mãe por perto, continuo comendo pizza só fim de semana, emagrecer aqui não é tão fácil quanto aí e refrigerante de manhã dá mesmo gastrite, pergunta ao Márcio de 18 anos, ele sofreu muito com isso... Mamãe mais uma vez tinha razão... E vai ver que a maior parte da chatice dela pra você aí é amor pra mim aqui... E morar longe dela é chato pra burro! Se cuida, Márcio Menino. E vê se faz um tratamento capilar agora! Aqui já é tarde demais!

Beijos,
Márcio de Vinte e Muitos"

Não parece fazer muito sentido esse diálogo. Tudo o que tinha que responder ao Márcio Menino a própria vida já respondeu. Trata-se de uma carta tardia e obsoleta. Mas talvez haja algum propósito maior se eu escrever ao Márcio do Futuro:

" Rio de Janeiro, 25 de janeiro de 2016

Querido Márcio do Futuro,
Não vou te encher de perguntas, porque o Márcio Menino era melhor do que eu pra isso e agora ele já não vive aqui, fora da gente, vou tentar te dar alguns conselhos que, na minha idade faz mais sentido: 
1- tenta não levar tanto trabalho pra casa, sei que você ama o que faz, mas às vezes a Vanessa vai precisar de ajuda com o cocô do Bradock (ou do Benício se ele já tiver nascido) 

2- Se ainda der tempo, liga mais pro pai é pra mãe, eles fingem que não precisa se preocupar, mas precisa sim.

3- A Lara e o Beto são mais parecidos com você do que você supõe então às vezes tenta dizer pra eles o que você diria pra você 

4- Gasta todo teu dinheiro com viagens em Familia, as viagens de trabalho parecem legais, mas não chegam nem perto de umas férias do lado dela 

5- Ouve ainda mais música brasileira do que eu ouvi. No fim eu tava certo e citar Caetano te faz parecer mais inteligente do que você é de fato 

E 6- Vê se pára com essa mania estúpida de dar conselhos para os outros... Ninguém te leva tão a sério quanto você supõe

Com carinho, 

Márcio de 28"

Pronto, acho que esses 6 itens são o suficiente... Agora é esperar para ver o que a vida responde no lugar do Márcio do Futuro, porque, por experiência própria, sei que ele vai demorar muito pra responder sozinho.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Desconforto


                                    
Desde que comecei a escrever crônicas, vez ou outra dava uma relida em alguns livros que muito me inspiram. Ora a poesia certeira de Drummond, ora a esguia de Pessoa. Ora as pinturas irônicas das crônicas da Fernanda Torres, ora as engajadas e não menos irônicas do Duvivier - heróis da minha geração - ao menos pra mim.

Mas o fato é que nessa segunda-feira recorri à todas essas possibilidades, li e reli cada texto, assisti as entrevistas de cada um deles, que sempre me enchem de ideias, mas nada! Estar de frente para o nada é de um susto sem fim. Quanta violência um papel em branco diante de nós, zombando da nossa criatividade estéril. 

Então conclui que nem sempre há o que dizer. Que, embora haja técnica e requinte, escrever é um convite de fora pra dentro. Quanta soberba acreditar que se é capaz de ter uma boa ideia toda semana... Quem somos nós?

Atravesso a zona norte do Rio, a caminho da gravadora, na barra, olho da janela do ônibus com o apetite de um prisioneiro, ávido por uma única iluminação, olho para pontos que evitava (a pobreza é sempre tão tocante) pareço um poço vazio. Profundo, mas seco de qualquer sinal de algo útil de ser descrito numa crônica. 

E é muita a pobreza a ser descrita da janela, já quase chegando à zona oeste: num lado da calçada, a polícia faz um 'baculejo' numa dupla de jovens, eles mantêm as mãos na cabeça, enquanto os "tiras" correm as deles pelos corpos sempre negros dos rapazes sem camisa, mas vestidos de um olhar assustado e uma expressão submissa. Do outro, uma senhora puxa a neta pelos braços, para que pare de assistir a cena do lado oposto “vai que sai um tiro” leio seus lábios de uma boca quase sem dentes. Nada me inspira!

Meu devaneio é interrompido por um ambulante que invade o ônibus, cumprimenta os passageiros com um texto mecânico e apresenta os doces que carrega com o domínio de um ‘expert’, descreve os benefícios para a garganta das balas de hortelã, a delícia crocante de um novo chocolate, tudo mais barato que nas mãos de qualquer outro vendedor, tenta convencer que é uma oportunidade única, convence a mim e mais duas ou três pessoas que levam ‘três por um real’, quando abri a embalagem, o mesmo de sempre, um doce comum e naturalmente amolecido pela má acomodação de lotação em lotação... ‘Se o Brasil desse chance, esse cara seria um excelente vendedor de automóveis’, pensei.

Já chegando na linha amarela, me deixei levar pela pintura nos tapumes que escondem a favela, depois assimilei o sentido de estarem ali, como é cruel a estratégia de blindagem da nossa visão para lá. É óbvio que o crescimento desordenado de uma metrópole deixa sequelas graves como a má distribuição e a ocupação sem infraestrutura, mas erguer paredes com paisagens artificiais é um insulto à nossa inteligência e uma forma deplorável de anestesiar a nossa consciência... Mas funciona.

No fim da viagem tenho mais certeza da inutilidade da minha escrita. De que adianta um belo texto se aqueles meninos da calçada seguirão levando porrada dos homens de farda? Se aquela velhinha seguira com medo de bala perdida? De que adianta a poesia se seguimos levando ‘três por um real’ certos da nossa vantagem, enquanto o vendedor ainda implora a Deus que não traga de volta pra casa mais nenhuma barra de Toxtic X ou Toxtic Mega Crocante, porque senão a família seguirá com fome e o Toxtic nem será mais tão crocante, o que dificulta a venda do dia seguinte... De que vale uma estrofe genial se caminhamos por vias expressas envoltas em muralhas pintando uma vida que não é a nossa pra impedir que olhemos no olho de quem não teve a chance de viver do lado de cá do asfalto?

Talvez adiante. Talvez trazer pra mais gente a memória do que a gente recalca por medo, egoísmo e vaidade, possa humanizar um pouco a rocha que nós forjamos pra dar conta da vida!

Sigo sem inspiração pra poetizar essa segunda-feira, mas em troca presenteio você, caro leitor, com o mundo real! Não quero ser a mão que pinta as paredes de um faz de conta, enquanto a fome do outro lado grita calada pelos nossos ouvidos surdos...


Que Drummond e Pessoa continuem a nos iluminar tornando em versos belos até o que é feio e que a Nanda e o Gregório não desistam de alimentar a gente com suas ironias sinceras e, por fim, que eu não perca a fé de que as palavras podem salvar um afogado se forem ditas de olhos abertos! 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Simplesmente ela


à Pierina

Em casa, de menino, nunca fomos de termômetros. Nossa mãe boa tinha o dom de medir temperatura à mão. Se reclamávamos algum mal estar, encostava as costas das mãos na testa e no pescoço, fechava os olhos e aferia nossas febres assim, na mediunidade materna. Nesse pequeno ritual ela facilmente distinguia gripe de frescura e era capaz de saber se estávamos prestes a receber a alta de sua medicina caseira onde quase tudo se curava com açúcar, água, sal e amor.

Recentemente notei essa capacidade em Beth Goulart, ao assistir pela 5ª vez o seu espetáculo teatral, "Simplesmente eu, Clarice Lispector". Fiz questão de mergulhar pela 5ª vez nesse rio de palavras bonitas e crises sem solução a qual a autora nos destina com sua vida e sua obra.

Pela quinta vez me submeti à paixão mais avassaladora que já vi uma atriz devotar ao palco. E que sublime amadurecer junto com ela como expectador. Lembro-me a experiência da primeira sessão. Ela dizia aquele texto com o domínio de uma grande atriz, mas o frescor virginal de uma estreia. Essa semana, 5 anos depois, ela preserva o mesmo domínio e um frescor diferente, de quem reaprende a cada apresentação o sentido do alfabeto.

Recupero a sensação da infância porque, tal qual a minha mãe, o corpo de Beth é quase um dom e, com maestria maternal, medica o expectador atento com doses de beleza poética da mais profunda ordem.

É tão capaz de medir a temperatura a partir do palco que não permitiu que eu assistisse uma só vez ao mesmo espetáculo. Teve a proeza de me arrancar lágrimas compulsivas e gargalhadas descontroladas refazendo a mesma cena em outro tom, a partir da necessidade daquele público novo, que resignificava as palavras de Clarice.

Ela ali, sozinha no palco, era muitas!

Consegue apontar nossas dores, florescer nossas vergonhas e até dilacerar nossa pobreza de espírito ao nos ensinar o caminho do sonho outra vez. Quem sabe a alquimia da genética, que lhe é cara, ou a soma com um talento tão próprio, traz de volta a vida uma Clarice tão real que, de início, faz parecer que estamos diante da escritora morta, mas com vida nova.

A semelhança física se dilui numa ilusão de ótica que ultrapassa a necessidade de contemplação e, até um ‘cego mascando chicletes’ é capaz de sentir sua presença irreversível. Simplesmente ela.

Meio bailarina, dá conta não apenas de Lispector como também de suas muitas personagens: Ana, Loren e tantas outras mulheres tão complexas que nos agarra à impressão de que de fato existiram.

Saí pela 5ª vez do teatro como que medicado, de um remédio novo, inédito, dado à mão no queixo por uma das maiores atrizes que o Brasil já assistiu em cena. Nas oportunidades em que estive perto de Beth, minhas poucas palavras eram de gratidão. De alguém enfermo que carece de sua arte para tornar a dar conta da realidade.

A falta de lucidez de um palco é o combustível pra uma vida inteira de sobriedade. Se há um jeito de enxergar o mundo a qual me identifico é pelas lentes do ‘faz de conta’. Nela me lanço e reaprendo o sentido das coisas com a pureza de quem não precisa do real para ser rei.


Suspeito que Nicette Bruno também não precise de termômetro em casa. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Adeus ano velho



Tem coisa mais cafona do que ter esperança quando o ano começa?

Na véspera é aquela choradeira, roupa íntima que atrai desejo, banho que espanta mau-olhado, oferenda pra orixá na praia, que vira lixo para o gari no dia seguinte, ceia, champanhe e fogos de artifício. Tudo pra comemorar o fato de termos atravessado juntos o conjunto de 365 dias sem nenhum arranhão.

Nenhum arranhão?

Mensaleiros saindo ilesos, morte inesperada de Marília Pêra, guerras inflamando os países árabes e europeus, pobreza eminente na terra do carnaval e o preço da gasolina, do leite, do ovo, do jeans...

Tudo bem, ainda assim estamos de pé, ainda que seja para contabilizar os danos. Até para por em prática alguns sonhos, por exemplo: esse ano eu caso com a Vanessa e devo acabar de pagar as parcelas da festa até dezembro, o que por si só já é motivo pra comemorar, mas o que fazer com todos os outros acontecimentos que me cercam?

O jornal diz que esse será o ano mais difícil que o Brasil já atravessou. A palavra 'crise' está estampada em todos os lugares. Chico foi humilhado no Leblon pela sua ideologia política, igual aos anos de chumbo e o CQC acabou.

O que fazer com tanta informação?

O Lázaro Ramos manda a letra numa cena de 'Ó Paí ó': "Resistir é a lei da minha raça" e o Gil complementa: "Andar com fé, eu vou, que a fé não costuma faiá". Na dúvida, passei meu réveillon de cueca verde... Cafona, mas vai que?


No retorno para o trabalho, ônibus segue lotado e a passagem subiu mais 20 centavos... Não é só pelos 20 centavos, mas minha esperança segue resistindo, quem sabe até o carnaval. Esses baianos sabem de tudo!