segunda-feira, 7 de março de 2016

Ivanilton Lima



Naquela tarde, a gravadora estava sediando a correria habitual quando me anunciaram uma visita importante a qual precisava receber: “Márcio, o Michael vem aí... você pode atender pra mim?”. Aceitei sem me questionar muito de quem se tratava, posto o grande número de artistas e empresários com os quais a minha rotina profissional propicia encontros, mas esse, apesar de ainda não ter me dado conta, seria um dos mais especiais.

Quando entrei na sala de reuniões me deparei com um rosto muito familiar, mas que ainda não me ligava à nome. “- Café, mate?”, questionei mecânico. “- Café e sem açúcar”, me respondeu aquela voz quase mais familiar que o rosto. Rouca e potente escondia um sotaque nordestino quase cantado. “Você deve estar lembrado de mim, mas é que estou com cerca de 100 kg a menos”, brincou. “Sou Michael Sullivan, trabalho com gospel, mas também venho da música secular”, respondeu direto à minha expressão que já devia denunciar meu questionamento. “Claro!”, exclamei incontido. Naquele instante me veio à mente as centenas de canções que aquele homem, que estava diante de mim havia composto:

De ‘My Life’ à ‘Wisky à GoGo’, de ‘Nem um toque’ à ‘Me dê Motivo’, passando pelas infantis ‘Brincar de índio’, ‘É de Chocolate’ e ‘Arco-íris’... Enfim, centenas de canções por trás de grandes vozes aclamadas pelo público e pela crítica, incluindo a dele. Tratava-se de um gênio inconteste e ali, diante de mim. “No que posso te ajudar?”, prossegui tentando disfarçar a admiração. Seguimos trocando casualidades profissionais e depois da terceira palavra já nos tínhamos tornado amigos de sempre e pra sempre.

No meio da conversa, soltei alguma metáfora impensada. Ele pescou e rebateu: “- Você escreve, não é?”. “- Como?”, respondi perguntando pra ele e pra mim... (Como dizer para o sábio de baixo da canção que imortalizou o dueto do Tim Maia com a Gal que se tem alguns manuscritos escondidos e que, há muitos anos, competi em festivais escolares cantando e defendendo meus versos?) “- Você descreveu algum termo com a sensibilidade de um poeta, menino”, seguiu me desafiando a sair da caixinha. “De certo modo...”, arrisquei. “Então faz o seguinte, tome nota do meu endereço e na semana que vem acertamos uma ida sua ao meu estúdio para eu ler o que você tem guardado, topa?”. Topei ainda sem muita certeza se era apenas uma gentileza daquele grande artista disfarçada de convite.

Às proximidades da hora no dia marcado, aquela mesma voz me pega desprevenido pelo telefone. “Márcio, escuta, você janta ou lancha à noite?”. Era ele, Michael Sullivan, reiterando um convite feito uma semana antes com a certeza definitiva de um caçador de almas sedentas pela arte. Ainda sem acreditar respondi qualquer coisa, juntei as minhas coisas e corri, literalmente, para o endereço anotado à lápis num pedaço de papel sem pauta.

Ao chegar à bela mansão por detrás de um grande bosque na Barra da Tijuca, lá estavam ele e sua esposa. Com a nobreza de um rei e o coração de um servo, me recebeu na casa e na vida deles pela porta da frente. Cantamos e contamos coisas das nossas vidas e, num instante, já estávamos sentados no estúdio que ele construiu para ser seu segundo lar dentro de seu próprio.

“Menino, eu tenho aqui uma melodia. Ainda não tem letra...” Enquanto ele terminava de desenhar as palavras da frase, meu corpo todo já reagia a uma sensação nova... A certeza de que ali nasceria um momento que daria um novo rumo à minha vida e à arte que eu produzia em secreto. Sem responder nada peguei papel e caneta e o deixei tocar o violão. Uma, duas, pedi a terceira e... Pronto. Tinha escrito algo. “Canta pra gente”, disse doce a esposa dele que ainda conhecia pouco e que tinha um nome difícil de decorar. “Ahhh... Deixa eu ir que o que tinha guardado no peito se perdeu...”, Comecei a cantar. Quando terminei estávamos os três muito emocionados e ainda mudos. Não sabia se tinha sido aprovado e o constrangimento se verteu em alegria quando os olhos de Michael brilharam enquanto ele dizia: “Que coisa bonita, rapaz!” Nasceu nesse primeiro encontro marcado ‘Dor em Arlequim’. Primogênita das dez canções que compusemos em parceria de lá pra cá.

Como uma mistura de tutor poético e irmão mais velho com solfejos de apadrinhamento, Michael Sullivan seguiu crescendo mais a cada dia em meu conceito. O que faz um homem consagrado pela mídia descer do seu trono e cavar um espaço no peito de um desconhecido com a humildade de um anônimo? Só a verdadeira nobreza é tão discreta, quando o Midas da canção te dá guarida na sua garupa e te surpreende com oportunidades incontáveis de crescer com a sua arte e ser alguém melhor.

Descobri que o homem, por trás da personagem de nome gringo, é um nordestino cheio de histórias reais nos bolsos da alma pra cantar para o nosso coração. É um jovem sonhador que passou fome de pão, enquanto saciava sua sede de música, acreditando que as coisas podem melhorar pra quem tem Deus no peito. Conheci, não apenas o Sullivan (sobrenome eleito numa lista telefônica em Nova Iorque pra protagonizar as trilhas internacionais das novelas da Globo), mas o Ivanilton Lima. Ser simples de generosidade transbordante que viveu o melhor e o pior da fama sem conhecer a cara do rancor.

Como a fada boa dos contos, Sullivan tem alimentado a minha escrita poética e encorajado a minha assinatura ao lado da dele em canções das quais me orgulho sem envaidecimento, porque é dele que sempre parte a consciência do suor por trás de um refrão bem escrito.

Michael Sullivan, ou Ivanilton Lima, tanto faz... é desses monstros sagrados que gastam mais tempo em suas oficinas de genialidade do que diante do espelho. É, pra mim, um símbolo na música e uma referência sincera na vida. Trata-se de um camarada que sabe de cor o número de degraus que lhe levou ao topo, para que não se iluda com a beleza da vista.

Ele, nessa semana, completa mais um ano de vida na vida da gente e o BlogQuaseCult pede ao ‘Cara lá de cima’ mais saúde e paz, para que possamos desfrutar da saborosa companhia deste homem de luz...


Brilha pra nós, Michael Sullivan! Brilha pra gente, meu amigo!

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Violão e voz




Nara Leão, João Gilberto, Caetano, Gil, Bethânia... Ninguém fugiu do barzinho. Do sul portoalegrense dos irmãos Kleiton e Kledir ao nordeste forrozeiro de Elba e Zé, ninguém passou ileso pela dor e a delícia de um violão e voz na boemia alheia e, finalmente posso dizer que, nem eu.

Desde menino, quando o pai emendava as festas da casa de praia no ‘Violão do Porto’, pra ouvir a versão mosqueirense do Chico Buarque, já ficava atento. “Como aquele cara decora todas aquelas canções? Como toca ritmado acordes dissonantes?”, me questionava sincero e cheio de vontade de fazer igual.

Depois dos 15, já mais moço, a mãe enchia a casa de cantores da cidade, lhes dando guarida e o nosso carinho, as Giseles (Gris e Furtado) foram as que, com certeza, me marcaram definitivo. Compus algumas canções inesquecíveis com as duas e foi segurando as mãos delas que dei minhas primeiras canjas na noite paraense.

De lá pra cá, misturei minha voz com a do mestre Renato Torres em parcerias nossas e em noites memoráveis no ‘Babitonga’, com a dadivosa Verena Torres. Um sem-número de vozes com mil e uma histórias para contar e cantar. Aquilo sempre, de alguma forma falou alto dentro de mim também.

Pois bem, chegou a minha vez. Não posso cometer o pecado de não mencionar que o casal Sullivan, que são as mãos nas minhas costas à me empurrar pra frente na música e na poesia, que me emprestaram toda a parafernália necessária para se fazer um som com o mínimo de qualidade.

Movido por uma paixão antiga e encorajado pela mulher da minha vida, que costuma dar asas aos meus sonhos malucos, me ofereci pra cantar em um restaurante na Ilha (do Governador) e acabo de voltar de lá com a sensação ainda viva e pulsante no peito.

Engraçado os malabarismos necessários para roubar a atenção dos clientes que chegaram ao local com a única necessidade de saciar a fome. Como ser mais interessante cantando do que um prato bem servido na hora do meu refrão? Ali, no banquinho, ao lado do meu fiel escudeiro Felipe Guedes, com o violão em riste, desafiava um falsete blues em ‘Oceano’, depois um vocalize lúdico em ‘Codinome Beija-flor’ até, acho que acertar a mão e trazer eles de volta pra mim.

Mal puxava o Cartola numa interpretação emocionante, ensaiada com poemas no solo e tudo, e o garçom já puxava meu tapete voltando pra avisar à família atenta que o guaraná acabara. O que fazer? ‘Todo artista tem que ir aonde o povo está’, como sabiamente previa Bituca. Eu aceitava o desafio.

Foram três horas lutando entre prato principal e sobremesa até que, na hora do cafezinho o restaurante veio comigo em coro “Eu quero é viver em paz, por favor me beije a boca, que louca, que louca...” Senti ali que a guerra tinha valido a pena.


Pensei no Djavan, tentando um lugar ao sol fazendo piano bar na zona sul, no Chico, ao lado do Toquinho, cantando cem vezes ‘A Banda’, num castelo na Itália no aniversario de uma duquesa cheia de convidados blasé. Pensei em mim ali, desarmado, mas ardendo à minha própria paixão, sem saber se estava pisando em falso na corda bamba da minha própria vida, onde pode acontecer tudo, inclusive nada... Domingo que vem parece que tem mais.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Labidad

À Glaucio, Flávia, Renato e Junior



Em Belém, existia um Colégio chamado Moderno e que levava muito a sério esse nome. Foi um dos primeiros a se tornar misto no Brasil, aceitando matrículas tanto de homens quanto de mulheres e aos poucos virou referência em educação e um dos mais definitivos incentivadores da cultura e do esporte, ao formar times importantes nas mais diversas modalidades e elencos de teatro e dança respeitados, sem falar nos músicos de bagagem que passaram a ser conhecidos no Brasil e no mundo como Pedrinho Cavalléro, Leila Pinheiro e tantos outros.

Eu tive a sorte de estudar lá ao longo de toda a minha vida escolar, do maternal ao convênio (como é chamado o terceiro ano do ensino médio na cidade). Nessa época, a gestora-mor da escola era a professora Marlene Vianna. Uma visionária com olhar sensível ao ser humano, daquelas de provocar suspiros até no Frei Beto. 

Foi sob a batuta dela que, na minha juventude, foi fundado o Núcleo de Artes e Esportes do Moderno, coordenado por um professor controverso pela rigidez, mas cheio de inspiração que era capaz de ensinar a vida enquanto se dividia entre as funções de educador físico e mentor intelectual do núcleo, o nome dele é Gláucio Sapucahy.

Além das equipes de esportes, era responsabilidade dele supervisionar os grupos de Dança, liderado pela intelectual e revolucionária pesquisadora do movimento Ana Flávia Mendes, com quem Gláucio veio a casar, teatro e música, regidos pelos poetas inspiradores Dionelpho Jr e Renato Torres.

O desafio do núcleo era manter uma rotina cultural na escola onde os alunos teriam contatos semanais com as diversas linguagens artísticas e espetáculos de dança e teatro anuais que protagonizariam pautas nas principais casas de eventos da capital paraense com requinte profissional. Além disso, seria necessário para o núcleo, manter a tradição de festivais que estimulariam a produção musical e poética dos estudantes da minha geração. 

Isso tudo além de ensinar o trivial, português, geografia, matemática... Parece um sonho né? Mas era realidade. Vivi um apogeu educacional onde nos era lícito compor e cantar nos intervalos musicais do recreio, dançar e interpretar nas feiras culturais com a liberdade de um artista de verdade.

Foi nesse contexto de festivais de música e poesia que aos poucos grandes personalidades artísticas foram sendo lapidadas.

O primeiro que participei foi em 2001. Tinha acabado de ingressar no grupo de teatro e me unido muito aos atores do elenco. Passamos a fazer tudo juntos. Assistíamos aulas uns nas salas dos outros, emendávamos os ensaios da peça com reuniões nas casas da turma e fomos absolutamente estimulamos por Dionelpho e Renato a mudar a nossa ótica habitual pela poesia.

Ali passamos a ser capazes de lançar mão de metáforas e abstrações cada vez mais precisas, até que criamos uma espécie de sociedade de poetas vivos, que costumeiramente se reunia no bosque da cidade para declamar, cantar e compor, ao qual batizamos Labidad (uma abreviação de bom gosto do termo Labirinto Dadivoso) que designava aquilo que apesar de complexo, nos preenche de prazer.

O resultado de um dos primeiros encontros do Labidad foi a composição da canção "Ver de começo", escrita pelas, então, atrizes Daiane Gasparetto, Márcia Dantas e por mim. A música se tornou uma espécie de hino premonitório de três crianças audaciosas, mas muito conscientes de que o que estava nascendo ali não era apenas um grupo de teatro de escola, mas um movimento cultural avassalador e definitivo, bom, pelo menos pra nós.

Ver de Começo
No meio desse tudo, sinto ser o que se sente
Poetas à procura de inspiração e semente de folha seca
E desejo que permita que para sempre continue
A virgindade poética de sermos tão especiais, quanto geniais e sempre
Mesmo que ultrapassados contemporâneos amantes da poesia
Da poesia
Diante dos que passam lúcidos somos à procura
Do qual estreante ritual
Ver de começo
Começo a ver, começo a ver o ver de começo
Ver de começo
Começo a ver, começo a ver o ver de começo
Fora o início
Fora a junção
Que por membranas na cabana
Que pedem pra que possam seguir
Onde cada coisa tem forma
Poetas a procura de folha seca
E desejo que permita
A virgindade poética de sermos
Quem quer verdecer? Eu quero ver!
Quem quer verdecer? Eu quero ver!
Ver de começo
Começo a ver, começo a ver o ver de começo

O fato é que inscrevemos a canção no festival de música do Colégio, o Fest Moderno, daquele ano. Na noite de apresentação, surgimos com figurinos coloridos, atitude cênica e divisões vocais bem elaboradas. Estávamos inventando o nosso tropicalismo com ares de doces bárbaros sem saber. Não ganhamos o festival, mas sabíamos que alguma coisa diferente acabava de nascer.

Nos anos seguintes em interpretações conjuntas ou solo nossas vidas passaram a contar com esse evento anual que mexia incrivelmente com a nossa criatividade e gerava certa competitividade poética saudável.

No meio dos baladas de amor adolescente em forma de rock ou pop, que eram característicos de festivais escolares de música, inscrevíamos baiões e xaxados, saboreando uma brasilidade ufanista com letras cada vez mais experimentais e recheadas de performances ousadas.

Depois de faturarmos o sétimo lugar daquele ano, nos separamos e preparamos canções solo ou com novos parceiros. Aos poucos esse movimento que nasceu no Núcleo de Artes ia ganhando adeptos. Vitor Nina, que estudava na minha sala entrava para o elenco na curva final da temporada de nosso espetáculo teatral e logo passou a integrar o Labidad com versos byronianos e um violão recém-aprendido que conduzia muitas das nossas reuniões.

Junto com ele escrevi diversas parcerias e uma delas faturou o prêmio de terceiro lugar do ano seguinte no Fest. Um baião moderno com letra nonsense chamado “O Barranco e o Zé pelling”. Os versos eram tão confusos que na eliminatória esqueci a segunda estrofe inteira e, por mais que os colegas e concorrentes gritassem solidariamente os versos da coxia, tive que improvisar uns vocalizes ‘edmottianos’ e convenci os jurados que me aprovaram para a final na noite seguinte.

O Barranco e o Zé Pelling
Passei por cima do barranco e
do meu terno branco só sobrou Zé pelling
Recauchutado, amarrado zabumba do viado
 dando em cima de mim
Pro resto do cristal que vi na lata do lixo,
pisado que nem chiclete,
cuspido feito cupido peste
Passei por cima do espaço
no meio do compasso foi que me confundi
Mistura doida de fermento e aço
nagô e pedaço Zabumba e zé pelling
Na costa do vitral que vi
Recauchutado na beata que se descola em mulata
quando ouve um tamborim
O tamborim quem toca é nego com fome,
 Vira lobisomem ou se desfaz assim
Mistura doida de asfalto e gente
onde a outra dorme e toma o teu lugar
Cachaça ou onda de bebida quente,
veneno de serpente pra te apunhalar
Mistura doida de fermento e aço
nagô e pedaço Zabumba e zé pelling
Zabumba e zé pelling ôh um ôh Um ôh!!!

No mesmo ano aproveitei a oportunidade de duas canções por participante e inscrevi a balada “Pedra em Flor”. Num romântico pop, meio Frejat, a canção destoava um pouco da linha que o Labidad vinha produzindo e fui acusado de ter cedido ao mercado, aos 15 anos... Uma profanação deliciosa da nossa construção poética. Faturou o segundo lugar, perdendo para a belíssima “Fim de dezembro”, da Daiane, que trouxe a poética da pequena notável mais para o chão, tornando-a mais acessível ao público.

Pedra em Flor
Então eu posso ver
A pedra se difundir em flor
Do gozo de quem nunca amou.
Quero conhecer, o medo de um amor
Fugacidade no elevador
Mas o 13 não chega nunca,
a firmeza do bem estar
Por que é que saiste de mim?
Só pra eu nunca me encontrar eu vou,
eu vou até o fim
Eu vou até o fim do mundo pra te buscar
Vou refletir a lua no mar
O mar na lua
Você nua e eu no altar só pra ver
A pedra se difundir em flor
Do gozo de quem nunca amou
A pedra se difundir em flor
Do gozo de quem nunca amou Nem a si


Fim de Dezembro
Ao entrar em fresta de janela
Cheiro de canela, soa assim assim
Sendo o fim de dezembro,
Amor ainda lembro do ano de jasmim
Flores, desastres clamores
Toca fita fica sendo assim
Por isso eu canto
Pra afinar meu sentimento
No meu quarto sinfonia melodia brisa da manhã
Cheiro que erradia
Brasa que tardia
A noite chega fria
despedida de coração

Um ano depois, descobrimos todos juntos o clube da esquina e o mentor Renato Torres, trouxe para a roda o livro ‘Os Sonhos não envelhecem’, do Márcio Borges. Nina empregou sua verve poética na composição de uma valsa emocionante, que ganhou ainda mais densidade na interpretação da veterana do festival Verena Torres, que gozava de seu último ano no Moderno e já tinha arrebatado vários prêmios do Fest em edições anteriores com o seu grave marcante e sua timidez romântica.

Segunda Voz
Calma, é só tua alma
É a minha saia, é o que te envolve
É o que eu cego, é o que tu sorves
É a minha sede de me molhar.
Calma é a tua espada é a minha lira
A minha ira
É a minha febre, é o que eu não nego
É o que te fecha
O que me enfesta
O sol e o medo
É o que te espera
Calma, tu és a noite
Eu sou o dia
Eu sou a noite
Tu és o dia
Eu sou o meio
Calma, eu sou tua casa
Eu sou o teu seio
Sou o que vejo
Calma, que eu sei teu nome
O que ninguém sabe
Sei por inteiro
Caiba, que tudo cabe
Da tua roupa ao
meu primeiro medo

Nessa edição eu tinha inscrito um maracatu groovado, super influenciado pelo Lenine, que eu acabava de descobrir em um show do Sesc que marcou a cidade, ao lado de Paulinho Moska e Nilson Chaves numa fita cassete que a Daiane tinha gravado da transmissão da Rádio Cultura. Minha canção se chamava ‘Vá idade’ e já narrava essa experiência da adolescência.

Vá idade
Tão logo venha minha novidade
Minha Nova idade, meu ancestral
Pra pouca idade digo mocidade
Para seu excesso Morte Funeral
Arbítrio de ter estampado na cara o tempo que passou
Vontade de ter a metade da idade vaidade de ser quem sou
Pelos pêlos e suas cores vejo amores que não vivi
E pelas rugas ressaltam as dores tragédias e flores que já sofri
Quando tão velho, me sinto óbvio
Quando tão óbvio, claro demais
Quanto mais claro, mais novo
Na idade o tempo jaz
Lá fora a paisagem corre tão devagar,
que nem dá pra ver, que nem dá pra ver
Posto que é vida qualquer caminhar,
Estou de frente pra idade que vou ter
E ela parece cansada demais
Adormece antes da prece.

Contra meu maracatu, Daiane inscreveu ‘Cinzeiro’, uma experimentação ainda mais aguçada com a palavra que arrancou aplausos efusivos ao fim de sua interpretação inusitada. Ela tinha a doçura da Nara Leão e a loucura de Tom Zé, numa mistura apaixonante.

Cinzeiro
Pé de barro que seca a seco
Pisa no alto do relevo
Pede a seca do sol
Onde já há
Solos molhados de espera
Onde há aterro atado às artérias
Onde há canteiro cantado no que era
Cinzeiro da certeza à espera
Na planta do nascer do sol

Sina de quem já consumiu
Sete relógios e não dormiu
Some no vácuo junto a quem pede queimado de anzol
Contando os poros na derme já preta
Furando os tombos por cair em cercas
Furtando os homens pintados na mesa
Que sangram a sorte no punhal

Márcia Dantas defendeu suas duas composições com a sensualidade precoce de uma musa, trouxe emoção a melodia madura que ela propunha. Outra que integrou o time foi a Paloma Amorim, filha da fina flor do teatro paraense, trouxe o teatro para dentro do festival de música com a baladinha “Menina da contra mão”, que era um tanto quanto autobiográfica e agente adorava.

No meu último ano de Moderno, Daiane e eu escrevemos ‘Armação’ e defendemos juntos. Foi sincero, emocionante e absolutamente lírico. Pena que os jurados não acharam o mesmo e nos deram uma pontuação baixa que nos passou arrastado para a final, mas nos colocou na sexta posição aquele ano.

Armação
Fui me arrumando
pra beber água e não bebi
Fui arrumando uma desculpa pra não te ver
E não te vi
Fiquei desarrumado ao saber que você se arrumou por lá
E há rumores de que os amores de lá são arrumados
Arrumam a língua apertada pra falar qualquer palavra
E caem na desarrumação, armação
Armação que mata a sede, quebra pote e invade,
E mata minha ânsia mareada,
Invada o rumo pra que encontre o ar
Armar, arrumar ar

A verdade é que as colocações e as notas nunca foram o motivo principal da nossa produção poética. A maravilha dos ensaios com a banda base, a rotina lírica dos conselhos e abraços, a amizade definitiva e a sensibilidade aguçada pelos nossos mestres era a verdadeira causa de toda a nossa dedicação que se legitimava no contato com a plateia na hora do nosso show.

Logo após termos concluído o ensino médio, foi autorizada a inscrição de antigos alunos, assim, Daiane se uniu à outros três bailarinos da Cia Moderno de Dança, que já participaram de maneiras diretas ou indiretas do festival de música Cristian Perrotta, que mais tarde veio a desenvolver suas habilidades musicais com formação, Ercy Souza, que segue escrevendo poesia e Feliciano Marques, com quem dividi lado à lado boa parte da minha formação artística e educacional numa amizade definitiva. O conjunto batizado de ‘Caixa à 4’ tinha uma performance percussiva contagiante, onde uma grande caixa era ao mesmo tempo palco de sapateado e atabaque baiano, sob o comando da poesia visceral da vocalista. A canção defendida foi ‘Antinome’.

Antinome
A entrada do anticorpo
Na ante-sala
Um desgosto
Puro descendo sangue
Inflamando artéria, arterite
Ele não era ela, ele era it
Antenome pessoal
Sexo indefinido
Um estrangeiro rompendo
O sangue venenoso
Água, memória filética
Universo e sal
Medula embalsamada 
Na espinha de peixe, um mal
Criado na comoção do gosto
O rosto composto grita

Vivemos a era dos festivais em pleno século 21. Forjamos figurinos, interpretações e muitos versos nos redescobrindo artistas e amantes da poesia. O que o ‘Ver de começo’ preconizava de fato se deu, o colégio Moderno cumpriu sua função nas nossas vidas.

Hoje somos psicólogos, médicos, jornalistas, atores e atrizes, músicos e, sobretudo, poetas. Somos uma geração de modernistas que pôde usufruir o melhor da arte em horários letivos sem culpa e sem vergonha. Tivemos a sorte do destino ao nosso lado. Sem falar no maravilhoso mundo do movimento que a Companhia Moderno de Dança abriu com suas pesquisas profundas e audaciosas, mas isso já é uma outra história...

Infelizmente, notícia vinda da estrada, os líderes da escola tiveram que entregar suas gestões e esse templo encantado da cultura cedeu ao capital. Parece que o núcleo de artes hoje dá espaço à mais salas de aula preparatórias de pré-vestibular e nunca mais nenhum aluno foi instruído a cantar, dançar ou compor em seus corredores.


Mas a boa notícia é que o Labidad segue imortal dentro de quem viveu e viu uma fase onde alunos eram pessoas encantadas pelo ensino livre de professores que ardiam à própria paixão de ensinar.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Sobre as abelhas de um blockbuster



Todo contato com a arte, quer seja emitindo ou recebendo sua frequência de beleza, por meio da poesia, da dança, de uma melodia, ou de uma interpretação bem executada, é uma espécie de catarse. Um salto pra fora de nós mesmos em busca de algo que nem sabíamos ter perdido.

Se a obra é ordinária, nos entretém. Se ela é boa, nos dá sede por essa busca, mas se é excelente, torna-se capaz de nos propiciar um encontro irremediável com um recorte da nossa alma.

Em 2008 o cinema estreou a adaptação do livro homônimo de Sue Monk Kidd, ‘A vida secreta das abelhas’, dirigida por Gina Prince-Bythewood. Apesar do preconceito que muitos têm com os ditos blockbusters, o elenco estrelar composto pela pequena notável Dakota Fanning, a, ao mesmo tempo, cômica e tocante Queen Latifah e a surpreendente Alicia Keys, que até então só conhecia por trás do piano com timbres avassaladores, deram vida à personagens de uma história tão intrigante quanto cruel.

Minha maior surpresa, no entanto, foi interpretação da coadjuvante Sophie Okonedo, uma atriz inglesa que até então desconhecia. Para não cometer ‘spoilers’, resumo o enredo do filme à busca culpada de Lilly (Dakota) pelo passado de sua mãe, entrecruzada pelas irmãs Boatwright, respeitadas apicultoras negras em um período de profundo preconceito de raça nos Estados Unidos de 60.

A história, oxigenada pela metáfora da vida das abelhas, revela as sequelas que carregamos ao enfrentarmos o lado difícil da vida. Dito assim soa como autoajuda mas é mais, trata-se do salto ao qual nos encorajamos dar, quando tudo o que nos resta é o abismo dos nossos medos.

Closes no olhar assustadoramente expressivo da jovem Fanning nos transporta a dor aguda da luta contra o desconhecido. O canto negro das irmãs Boatwright, um lamento de resistência temperado pela fé de um povo oprimido. Trata-se de uma ode à vida, sem a edição das partes ruins. Um primor em tempos de produções rasas e sem alma.

Okonedo dá vida à May Boatwright, uma mulher que, ao perder a irmã gêmea com quem tinha uma ligação transcendental, passa à ser invadida pelos sentimentos que atravessam o mundo a sua volta, como uma catalizadora de emoções alheias, sofre e se alegra com tudo aquilo que a cerca, nos ensinando que ‘as vezes é melhor não sentir para dar conta da vida e sobreviver’, num misto de esquizofrenia absolutamente verossímil e sabedoria poética ancestral traduzida em sua pele negra.

Apesar de 8 anos atrasado, fui acometido de um sentimento tão tangível ao assistir esse filme escolhido ao acaso num feriado qualquer, que precisei compartilhar aqui. Antes tarde do que nunca, afinal a beleza que nos tira do lugar comum merece ser sempre revisitada.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Vida On Demand



Sou de um tempo longínquo quando, para não se perder uma programação na TV, era necessário programar-se com bastante antecedência. Éramos escravos da grade de horário da televisão e sujeitávamos nossa rotina diária ao bel prazer dos programadores.

Surge, então, uma tecnologia que parece sempre ter estado à nossa disposição, mas trata-se de um recente fenômeno que emerge de modo mais nítido em feriados prolongados como o carnaval. Toda uma programação rendida ao nosso desejo na distância de um click do controle remoto.

Pacotes mensais a preços simbólicos são a chave de acesso à toda sorte de filmes, séries, desenhos, shows e sitcons na hora e dia que nós bem entendermos. A Era do ‘On Demand’. Isto é, episódios, capítulos e temporadas regidos ao crônos do desejo hedonismo do homem contemporâneo.  Uau, mas onde isso vai dar?

Infelizmente, a lógica da vida humana ainda não chegou nesse nível de elevação. Temos que calcular a aritmética do horário de acordar com a pontualidade do transporte público caso queiramos chegar à tempo no trabalho. Perdemos muito pouco tempo com aquilo que, de fato, dá sentido e propósito à nossa existência. Somos escravos do relógio capitalista do ‘pra ontem’ e mal damos conta do hoje.

Engraçada essa sensação de que o planeta passou a girar com maior velocidade. Dias e noites tão curtos quanto os nossos prazos para entregarmos grandes projetos. Você já se deu conta de que nas mesmas 24h de hoje éramos capaz de realizar muito mais atividades na nossa infância?

Lembro-me que nas tardes da minha meninice os relógios não tinham ponteiros. Nas escadas do prédio onde morávamos era possível ser polícia e ladrão, agente secreto e super-herói... tudo antes mesmo da mãe servir o jantar. Nas tardes de hoje, onde os ponteiros não apenas existem como ditam o compasso dos meus passos, mal dou conta de ser eu mesmo e a noite chega silenciosa, anunciando que o dia já seguiu seu curso.

Não vamos longe, basta assistir a um filme da década de 70 e depois um rodado hoje. No cinema do passado, as cenas fortes eram sucedidas por longos takes de paisagem com boa trilha sonora, como que para nos ajudar a digerir o sentido das falas interpretadas minutos antes. Nos atuais, mal nos enlutamos pela morte da mocinha e o vilão já é revelado e vingado pelo herói que representa a nossa justiça, sem tempo a perder. A vida real é cada vez menos ‘On demand’.

Não somos mais escravos dos programadores de TV, mas eles nos levaram à praça pública, sob o julgo do sonho da vida bem sucedida e o capital, aprovando nossa arcada dentária completa, arremata nossos grilhões para servirmos aos novos senhores de engenho que controlam o tempo com o chicote das horas sob o sedutor álibi do consumo: ‘Tenho, logo existo’.

A verdade é que a programação não sede à nossa vontade, mas à nossa falta de tempo. Filhos crescem sob a batuta das babás, porque os pais estão tentando garantir o futuro, sem perceber que o que o define é o presente guardado na caixinha do ‘depois’.

O paradoxo da existência contemporânea é acumular ao máximo com tempo mínimo para usufruir. Como tentar gozar da sombra de uma semente, já que a árvore não nascerá em tempo hábil.

Quisera eu que a vida fosse tão ‘On Demand’ quanto a tevê.  Assim seria possível olhar para as coisas com tempo suficiente para entendermos com profundidade o que elas são e um texto de blog teria a competência de alcançar mais leitores do que as crônicas do Bial que eliminam participantes de um reality de plástico que chega com sucesso à décima sexta edição vazia e vulgar à custa do tempo que nos resta para sermos mais do que meros expectadores da nossa própria vida.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

É Carnaval!



Se o Brasil é o País do carnaval, o Rio é o berço esplendido da festa de momo. Uma espécie de porto onde todas as opções ‘foliônicas’ atracam seus navios de diversão e colorem a cidade de todas as cores da bandeira da alegria, certo? Nem pra todos!

Prometo não jogar água no chopp do folião entusiasmado com a serpentina, mas é impossível passar ileso ao impacto que o cotidiano sofre com essa invasão da ‘felicidade alheia’. Que, aliás, vitimou dezenas de pombos no ensaio do Salgueiro na última semana. À troco de quê?

Levei tempo para me acostumar com essa rotina carioca de fugir da cidade no mês de fevereiro. Achava uma atitude blasê da burguesia cult que, tão logo tinham oportunidade, fugia para a Serra. Hoje, três anos instalado sob a sombra do Cristo, compreendo que esse “salve-se quem puder” é a tradução direta de um sintoma que agita a cultura brasileira desde os tempos de Cabral.

É só a mulata começar a sambar seminua em horário nobre que os blocos ganham as ruas em marchinhas infernais que, ora bloqueiam vias importantes e ora presenteiam as calçadas com os mais diversos odores oriundos dos fluidos corporais de gringos incautos e turistas nacionais em êxtase: “Pode tudo, afinal é carnaval”.

A prefeitura ganha com turismo espontâneo e licitações de banheiros químicos, quase nunca utilizados, as agremiações se legitimam colocando suas escolas na avenida com as protagonistas, ‘das oito’, rebolando até o chão e bradando o samba-enredo num delay infinito e a população, que não tem samba no pé, que se dane para encontrar percursos alternativos para chegar ao trabalho até antes do feriado. Sim, porque a festa tem Esquenta na TV e na vida e só acaba muito depois de quarta-feira nas ressacas de pós-carnaval.

Perceba, caro leitor, que a minha insatisfação não é com a festa em si. Acho bonita essa capacidade tão brasileira de vestir a fantasia do ‘apesar de...’ e sair às ruas decidido à ser feliz, mas acho importante salientar que a mesma população que junta cada centavo para costurar um adereço exuberante nas ruas, sofre as barbáries do desmando de uma política excludente e coronelista.

Somos o país do analfabetismo, do crime organizado e recordista nos quesitos de prostituição infantil e moradia de rua. O Rio, que cedia as Olimpíadas e é a passarela de um dos mais tradicionais carnavais brasileiros vive sob o comando de um poder paralelo sustentado pelo narcotráfico e todo mundo sabe. E daí?

E daí que esse é o período de grandes decisões no congresso, que são aprovadas debaixo do nosso nariz de palhaço. Nos municípios a maioria dos orçamentos do ano são defendidas e definidas enquanto a gente canta ‘Alalaô’.

Enfim, sou 100% brasileiro e a nossa cultura ganha notoriedade nesse período, admito, pelo menos nos Estados que, de alguma maneira, enriquecem nesse feriado, visto que cidades como Belém, por exemplo, usam a avenida para desfilar mais uma resistência cultural do que uma beleza artística factível. E é belo ver como a massa é poderosa ao entoar seus cantos que gritam por mais respeito à arte de um povo, do que para comemorar o que quer que seja.


Quanto à mim, vou para a serra!